As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Palavras

Luiz Carlos Merten

25 de novembro de 2012 | 12h45

RIO – Tive ontem um dia particularmente cheio. Pela manhã, rolou algum estresse até eu descobre onde era o set que devias visitar – o de ‘Minha Mãe É Uma Peça’, que assinala o upgrade da carreira de Paulo Gustavo. Ele já havia feito o cabelereiro gay de Lília Cabral em ‘O Divã’, roubando a cena com um papel pequeno que não devia durar cinco minutos na tela. Paulo Gustavo faz agora Dona Hermínia, a mãe suburbana, amorosa e represssora, que o ator criou num monólogo que estourou no palco e passou de um milhão de espectadores. O curioso é que Paulo se baseou na própria mãe, Dona Deia, que ele sempre imitou para os amigos. Confesso que poucas vezes me diverti tanto num set. O cara é hilário, mas tenho de confessar. A mãe dele é ainda mais engraçada, com base numa gravação que Paulo me mostrou em seu celular. Saí do Estúdio do Cais, na conflagrada RUa Equador – toda aquela área próxima à Rodoviária do Rio está em obras -, e corri para o CCBB, para ver ‘La Demora’, de Rodrigo Plá, no Festival 4 +1. Dali corri para o Espaço Itaú, para a Semana dos Realizadores, para ver o Bressane. Caiu a maior chuvarada e eu, feito mosca tonta, peguei um táxi e corri para lá e para cá, confundindo cinemas, até descobrir que ‘As Palavras’ estava na Visconde de ajá. Quase meia-noite, fui jantar no Lamas. Os três filmes me produziram diferentes graus de perturbação. Estava muito impressionado com o relato que me fizeram no set de ‘Minha Mãe’ sobre o estado de Dib Lutfi, o grande diretor de fotografia e cameraman, que está desmemoriado no asilo dos artistas. Entrei já meio desnorteado no filme de Plá, que é sobre esta mulher, mãe de três filhos, que cuida do pai, que sofre de Alzheimer. Sua vida é uma dificuldade só e, no limite do desespero, ela abandona o pai numa praça, à espera de que ele seja recolhido e levado para uma instituição. Mas o velho insiste em ficar na rua, em casa os netos não se cansam de perguntar pelo avô, a filha desespera-se e inicia uma busca na noite. Quem quiser procurar defeitos no filme, certamente vai encontrá-los, mas eu viajei naquela história, naquela tragédia familiar, que me deixou em frangalhos. Tudo muito minimalista, nenhum excesso. Gostei. O filme de Bressane, ‘Rua Aperana 52’ é sobre a linguagem e a luz, permeado de referências aos filmes que ele próprio realizou. Parte de um endereço, uma casa, relaciona fotos de pessoas e uma paisagem, um trecho de estrada, em que se passam cenas de vários Bressanes. Achei o filme mais estimulante do que o debate que se seguiu. A atitude de adoração da plateia me pareceu excessiva, até porque Bressane, a quem admiro, me deu a impressão de cultivar o próprio mito e não o desmontar, como faz, com humor, o Werner Herzog, por exemplo. A rigor, ele não disse muita coisa e mais desconversou do que proporcionou chaves para o (auto)entendimento da obra. Ainda preciso pensar muito para tentar escrever alguma coisa minimamente inteligente sobre ‘Rua Aperana’, mas se há coisa que não subestimo é a capacidade de Bressane criar fragmentos audiovisuais, de som e imagem, que são fascinantes. E ainda houve  ‘As Palavras’, da dupla Brian Klugman/Lee Strenthal. Três histórias – a de um escritor que ganha um prêmio, a do livro premiado e que se constitui num plágio, e a que engloba todas, porque as duas tramas estão num terceiro livro, sobre como o autor plagiado reaparece para cobrar a dívida (não no sentido pecuniário). Há um momento em que Bradley Cooper, o suposto plagiador, tenta dizer ao velho Jeremy Irons, o plagiado, que não foi sua intenção. O grito ressoou nos meus ouvidos como a fala da filha em ‘La Demora’, quando ela diz que ‘Esa no soy yo’. Diz por um motivo, mas no fundo está dizendo para a gente, o público, que não é uma má pessoa e abandonar o pai foi uma fraqueza pela qual se culpa, e isso por mais que ele seja (como é) um peso em sua vida. Gostei de ver ‘As Palavras’, mas não diria que o filme é bom. As histórias de Bradley Cooper e Jeremy Irons me parecem melhores que a de Dennis Quaid e o fecho de tudo não me convenceu – nem à plateia. Havia gente perplexa no final, mais irritada do que intrigada. Mas é como sempre digo. Um filme contém todos os filmes. O de Bressane obviamente remete a imagens (ficções) de outros filmes que ele próprio realizou, mas a filha e o escritor que se explicam por seus ‘erros’ me parecem miseravelmente humanos em ‘La Demora’ e ‘As Palavras’, por mais diferentes que sejam um pequeno filme uruguaio e uma produção classe A de Hollywood. Fico hoje no Rio à espera do final do Festival 4 + 1, à noite, no CCBB. Vocês ainda podem ver e votar nos filmes, online. Volto amanhã para São Paulo. O tempo aqui não está bom. Morro de medo de que o aeroporto feche de novo e se repita a experiência da semana passada, quando fiquei preso no Santos Dumont e, depois, no Galeão.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.