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Outubro virá

Luiz Carlos Merten

20 de junho de 2020 | 12h21

Que raio de título é esse? Estou com a TV ligada. Entrevistado por Cissa Guimarães, João Bosco canta Brinquedo de papel machê – quando vocês (alguém?) lerem ele já terá cantado. Entrou o quadro que adverte sobre fake news. Até o diretor da OMS desistiu do isolamento e está na praia. Quem acredita nessa m…? Quem propaga essas mentiras? Está certo que todos nós sofremos rasteiras da vida, mas por que enganar, mentir de forma tão descarada e sistemática? As fake news viraram uma tragédia contemporânea, um crime de lesa-humanidade que tem servido à ascensão dessa direita sórdida. Acabo de cumprir minha tarefa de todo sábado pela manhã, a leitura de CartaCapital. Não tem mais a coluna de Nirlando Beirão, mas temos as entrevistas de Mino Carta (Lula, José Dirceu, esta semana Flávio Dino). O cerco se fecha. Cada um tem o mito que merece. O meu é Jotabê Medeiros, uma referência do jornalismo cultural brasileiro. Jota e Eduardo Nunomura entrevistam humoristas – Rir para Não Chorar – sobre a tragédia brasileira. Gregório Duvivier, Marcelo Adnet, a Laerte. Mas confesso que, de toda a matéria, muito bem apurada e escrita – mas um tanto inalcançável para mim, que estou fora das redes sociais – uma informação en passant me interessou particularmente. Paulo Gustavo abriou seu perfil no instragam – se o Paulo leva mais de 10 milhões de espectadores aos cinemas, nem imagino quantos serão seus seguidores – para que Djamila Riberiro converse com seu público sobre questões relativas a racismo e socioedade. Tnha minhas dúvidas, admiti para ele, sobre o final do Minha Mãe É Uma Peça 3, mas o Paulo estaba certo. Foi aquele estouro. Imagino o que poderia ser um encontrto de Dona Hermínia com a Laerte para discutir questões de gênero no País. Djamila poderia ser a mediadora. A partir de algum momento, passei a comprar a Folha, às sextas, por causa do Guia. Depois, esqueci do Guia e passei a comprar por causa da coluna semanal dela. Vou dizer o que poderá parecer absurdo. Para mim, Djamila é a Maria Conceição Tavares das questões de raça e gênero – de sociedade -, como Maria Conceição foi a pré-Djamila da economia, e das diferenças, da sociedade, portanto. Fiquei vidrado na Maria Conceição desde que vi aquele documentário. Sobre pensamento antirracista já tinha algum conhecimento, mas tudo o que aprendi sobre lugar de fala foi com Djamila. Já que estou aqui prestando minha modesta homenagem a essa pessoa, a essa cidadã tão maravilhosda, presto também a Nei Duclós. Lento e bruto eu mudo/sei que vem outubro. Nunca esqueço os versos do Nei, quue viraram um mantra para mim. Outubro sempre virá. Fui colega do Nei em Porto Alegre, Perdemô-nos no mundo, mas meu carinho por ele segue imenso. Reencontrei no outro dia, numa pilha de livros, o volume Todo Filme É Sobre Cinema, na Coleção Aldus, da Editora Unisinos, uma seleção de escritos dele. É de 2014. Antes tarde que nunca. Nei, no fundo, talvez seja como eu. Não escreve sobre filmes – e cinema – embasado em nenhuma teoria específica, o que poderia ser restritivo. Utiliza ferramentas de várias, escreve como humanista e poeta. Compartilhamos o humanismo, quem me dera a poesia. Que riqueza de observação, de escrita! Nesse confinamento medonho, tenho tido momentos de depressão – como o é cruel (incompetente?) o roteirista responsável pelo atual script da vida brasileira -, mas também de euforia, de descobertas, quando vejo, leio ou lembro pessoas inspiradoras – o João Bosco, Fafá de Belém, que cantou (para mim?) Coração de Estudante no mesmo quadro do É de Casa, na semana passada. Nesses momentos, creio, firmemente, sim, que não dá para desistir. Outubro virá,