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Os meus clássicos. E a lenda de Tarzan

Luiz Carlos Merten

19 de junho de 2020 | 10h40

Tenho negligenciado o blog. Fui olhar agora e meu último post data de uma semana atrás. Tenho feito bastante coisa no meu material do dia para o jornal, mas confesso que a série Clássico do dia tem me absorvido. Comecei como brincadeira, para passar o tempo, dos leitores e meu, mas terminei me empolgando. Cada filme tem sido uma viagem. E a maneira como os filmes me vêm. Às vezes estou escrevendo sobre um e me vem o insight para fazer outro. Nos últimos dias escrevi sobre Corrida Contra o Destino, Meu Ódio Será Sua Herança, Domingo Maldito, Deus Sabe Quanto Amei e Três Irmãos. Tre Fratelli, Francesco Rosi. Vira e mexe e, inconscientemente, volto sempre a Rocco e Seus Irmãos, o filme de minha vida. O curioso é que tenho mais um brasileiro para acrescentar, mas quando pensava em Gustavo Dahl, Uirá, o Índio em Busca de Deus, me vinha A Lenda de Ubirarajara, de André Luiz Oliveira. Como são tortuosos esses caminhos da lembrança. Na última vez que fui à farmácia, passei de táxi na banca da Paulista e comprei algumas revistas. Sight and Sound, Total Film e Empire. Estão aqui em cima da mesa e todo dia vejo a capa da primeira. Vincent Cassel, La Haine, 25 years on how society imploded in black and white. E todo dia fico pensando se vou ascrescentar o Mathieu Kassovitz aos clássicos. Está lá atrás, nesse filme, a origem de Les Miserables, de Ladj Ly, do qual gostei tanto. Talvez esteja mais atrás ainda, em Blackboard Junghle/Sementes da Violência, de Richard Brooks, de 1955. É mais provável que, em algum momento, acrescente esse. Durante toda a semana pernsei num post porque revi, no fim de semana, A Lenda de Tarzan, de David Yates. Meus colegas críticos não vão entender, mas quando entrevistei Imelda Staunton em Cannes, a atriz de Mike Leigh e Ang Lee me disse que gênio era o David, que nunca consegui confirmar se tem parentesco com Peter Yates. Vendo o Tarzan dele me dei conta de como ela tinha razão. É um filme para quem leu Edgar Rice Burroughs, um reboot. A trama dos diamanmtes está mais para H. Rider Haggard, As Minas do Rei Salomão, mas a origem de Tarzan é magnífica. Quando Alexander Skarsgaard, Margot Robbie e Samuel L. Jackson chegam à África, sobem uma encosta e lá em cima estão os leões. A câmera avança com Alexander e deita-se quando Lord Greystyoke despe o manto civilizatório e roça o próprio corpo no leão, num reconhecimento mútuo. A morte da mãe gorila, o encontro com Tantor, o elefante. O desespero de Djimon Hounsou como o chefe nativo, acusando Tarzan de não ter honra, porque matou seu menino. O diálogo impossível – ‘Seu filho matou minha mãe!’ ‘Era uma macaca!’ Não sei se é preciso ter lido Edgar Rice Burroughs para sentir a emoção, mas eu li. Era ávido leitor da Coleção Terramarear, que me nutriu, e reencontrei no David Yates. A cena de Jane/Margot ansiosa, Tarzan pode ter morrido na explosão do barco. O plano dela de perfil, o estremecimento, ele entra, por trás, no campo visual. Esfrega-se, como bicho. Caraca! O colonialismo sempre esteve no centro daqueles livros, mas David Yates busca uma superação. Interessante. Estava radiante por ter revisto o Tarzan à tarde, na Globo, e à noite embarquei em outra viagem. Zapeando, vi que ia começar no Canal Futura um filme chamado Nos Últimos Dias da Cidade. Não tyinha ideia do que era. Resolvi conferir. Amei, era um filme egípcio de Tamer Erl-Said. Um homem, um cineasta, que está senmfo desprjasdoi er ptrocura casa em meio à tormenta, a primavera árabe. Uma cidade, uma sociedade em escombros. A mãe dele que está morrendo. Um filme que, pela desconstrução da narrativa tradicional, se fosse brasileiro, teria de estar na Mostra Aurora. Gostei demais. De volta ao começo, à Sight and Sound. As cartas dos leitores. Um certo Richard Sherwood-Farnfield levanta a qwuestão – por que Parasitas, no singular, se Bong Joon-ho mostra duas famílias parasitárias, de diferentes extratos socioais? Porque parasita é o espectador. A abordagem é bem fundamentada. É um filme pelo qual tenho sentimentos ambivalentes. Não sou louco de negar sua importância, mas tem o problema da falta de dialética. Quem se preocupa, quem ainda sabe o que é isso? Gosto mais de outros filmes do autor e preferiria ver todo o rebuliço causado por outro sul-coreano, o Lee Chang-dong de Em Chamas, embora saiba perfeitamente que o estado do mundo – o horror de Trump, Bolsonaro, Kim Jon-un & Cia. – esteja nos levando à casa-armadilha de Bong.

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