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Os homes está ‘cá razão? Não, razão tinha o poeta – Adoniram (re)visto por Pedro Serrano

Luiz Carlos Merten

18 de setembro de 2019 | 09h01

Havia gostado muito do documentário Adoniram Barbosa – Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano, que vi em Gramado, há alguns anos, acho que em 2016. Adoniram! Tenho uma fascinação muito grande pelo personagem. Adoniran, Lupicínio Rodrigues. Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura… E –
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei
Os homes está ‘cá razão
Nós arranja outro lugar…
Éramos poucos ontem à tarde, no Belas Artes, para assistir à sessão de Adoniram – O Nome é João Rubinato na mostra Pandora 30 Anos. Menos de dez pessoas, incluindo o diretor, Pedro Serrano, a mãe dele, e eu. No final, a mãe, orgulhosa, não resistiu. Perguntou se havia gostado e disse, toda sorrisos – ‘Foi meu filho que fez.’ Apresentei-me. Trocamos abraços, cumprimentos. O filme era às 2 (da tarde). Almocei, pouco antes, pela primeira vez, no restaurante do IMS. Apesar de tudo o que esatamos vivendo, existem momentos… Perfeitos? Comi uma carne de cupim com cuscuz, uma delícia, e fui ao filme. Gostei muito. Muito! Um documentário de arquivo, de entrevistas, mas algo se passa no terço final que ultrapassa o registro, a informação. O filme toca em áreas mais densas, profundas. Pelão, produtor musical, a quem tive o privilégio de conhecer através de Leila Reis – houve uma época em que éramos todos muito unidos -, conta que havia um preconceito contra Adoniram, contra a sua linguagem musical e poética. Ele então encomendou um texto a um intelectual de peso, Antônio Cândido, para falar sobre Adoniram. Entra o Elifas Andreato, contando que criou, para a capa do disco em homenagem aos 70 anos do cantor e compositor, a imagem de um palhaço triste. Foi demovido por um executivo da gravadora que lhe disse que o poeta talvez não entendesse. O próprio Adoniram, falando para a câmera, diz que é aquele palhaço triste. Não poderia ser diferente, com a vida que teve. Entra o texto de Antônio Cândido, que eu não conhecia e que esclarece uma fala da repórter no enterro de Adoniram. Nenhuma autoridade municipal nem estadual foi prestigiar o mais autenticamente paulista(no) dos compositores. Amigos, familiares, o povo que foi se despedir do seu poeta. E as imagens dos excluídos que ele cantou como ninguém, dos Mato Grosso que não adianta gritá porque os homes tão sempre com a razão e eles não serão ouvidos. Ocorre então o momento mágico, na verdade, um pouco antes. O passeio de Adoniram com Elis Regina por essa São Paulo ‘dele’. Elis que cantou Tiro ao Álvaro no disco-homenagem. Engasguei, chorei, queria gritar ao mundo, a essa São Paulo inteira, que pode ser tão dura, tão cruel com os periféricos e os excluídos – vejam esse (belo) filme, pelamor de Deus. Pedro Serrano não é só sensível, talentoso. É um artista, como o próprio Adoniram.

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