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Os 100 maiores personagens. E onde foi parar Carlitos?

Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2018 | 11h49

Reli meu post anterior e até pensei em deletar. Resolvi deixar. Não sei se consigo escrever sobre o filme sem risco de spoiler, mas creio que a cena em que Kate Winslet corre para o telefone, no final, e depois vacila, é a mais extraordinária filmada por Woody desde seus melhores momentos com Mia Farrow. E a sombra de Mia perpassa o filme. Até na ausência, na oposição, o melhor de Woody Allen como criador vem dessa mulher. Que coisa! Arrependi-me de não ter colocado Wonder Wheel entre meus melhores filmes. O filme sombrio termina com um menino maluquinho tocando fogo nas coisas, no mundo. Não sei se o Woody Allen pensou nisso, mas se o filme se passa nos anos 1950, aquele garoto incendiário teria hoje 60/70 anos. Seria quem, meu Deus? Puta filme… Comprei ontem duas revistas de cinemas na banca do Conjunto Nacional. A Empire de dezembro comemora, na capa, os 25 anos de Reservoir Dogs/Cães de Aluguel. Viajei nas lembranças. Cannes. Paulo de Góis, quem o conheceu sabe, me arrastou para ver o tal filme, que vinha precedido de uma reputação (já!) de cult no circuito indie dos EUA. Depois, fomos à entrevista do Quentin, que ainda não era Tarantino. Um ou dois anos depois Tarantino voltaria a Cannes para receber a Palma de Ouro por Pulp Fiction, mas, naquele momento, éramos poucos e formamos uma roda para conversar com ele. Uma conversa maluca de cinéfilos, com Tarantino feliz da vida por estar no maior festival de cinema do mundo. Minha vida tem desses momentos, que considero privilegiados. Comprei também outra revista, a Total Film, cuja chamada de capa é o resultado da enquete que a publicação fez com seus leitores e internautas, sobre os 100 maiores personagens da história do cinema. Recuo um pouco. No dia 25 passado, Natal, fiz uma capa no Caderno 2 sobre os 40 anos da morte de Charles Chaplin, paras avaliar seu legado. Entrevistei um monte de gente. Gregório Duvivier, Luís Lobianco, Ingrid Guimarães, Jarbas Homem de Mello (Ubiratan Brasil conseguiu uma declaração dele), Fábio Porchat. Todo o mundo se derramou em elogios, menos o Fábio. Duvivier dissecou a cena emblemática em que a cega, recuperada a visão, descobre que seu benfeitor foi Carlitos, em Luzes da Cidade. Lobianco lembrou o artista autoral e o discurso final de O Grande Ditador, Jarbas fez uma análise bem acurada, que desmembrei ao longo do texto, etc. Fábio, contra tudo e todos, achou Carlitos, portanto, Chaplin, ultrapassado. Seu humor envelheceu – disse. Por que estou postando isso? Por causa da lista da Total Film. Fábio Porchat foi premonitório. Estão todos lá – Scarlett O’Hara, Holly Golihtly, Mary Poppins, Yoda, Charles Foster Kane, Harry Lime, Rick Blaine, Annie Hall, Ethan Edwards, ET, Norman Bates, Jason Bourne, Norma Desmond, Margo Channing, Vito e Michael Corleone, Baby Groot (apesar do sucesso de Velozes e Furiosos, Vin Diesel só entra aqui), Gollum, King Kong, Freddy Krueger, o Tubarão. Todos – menos Carlitos, que não ficou nem em 100.º lugar. Nenhum personagem do cinema europeu. Nada de Michel Poiccard nem Antoine Doinel nem Pierrot le Fou. Ah, sim – um. O Ewan McGregor de Trainspotting. Cinema brasileiro? Nem sonhar, masa o Antônio das Mortes bem poderia estar entre ols 100. Rey/Daisy Ridley ficou em 87.ª, Mulher Maravilha (Gal Gadot) em 71ª, Superman (Christopher Reeve, Henry Cavill!) em 59.º, Luke Skywalker em 47.º., Darth Vader em 23.º e o Brad Pitt de Clube da Luta em 16.º. Atticus Finch, o advogado interpretado por Gregory Peck em O Sol. É para Todos, de Richard Mulligan, havia sido escolhido o maior herói de todos os tempos de Hollywood, por sua construção ética, em outra pesquisa promovida pelo American Film Institute. Agora foi parar em 88.º. Se isso é um sinal dos tempos, é de cortar os pulsos. Os dez mais, pela ordem decrescente – Princesa Leia, décima, The Joker/Heath Ledger, nono, a oficial Ripley/Sigourney Weaver, quarta, Han Solo, terceiro, Batman, segundo e… Primeiro! Indiana Jones. Harrison Ford na cabeça, em primeiro e terceiro lugares. Pode ser que muita gente ache a lista divertida, e só. Eu acho que ela oferece material para reflexão. O que é o cinema? Qual é a expectativa – a sua, a minha, a nossa – diante dos filmes? Isso será material para futuros posts.