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Orson Welles, boquirroto?

Luiz Carlos Merten

04 de maio de 2015 | 23h33

Não é segredo para ninguém, minha antipatia pela última fase de Martin Scorsese, e por seus filmes com Leonardo DiCaprio. Entrevistei ‘Marty’ algumas vezes e ele falou sempre de seu projeto mítico – As Gangues de Nova York. Demorou tanto- ele perdeu o momentum, como se diz – que virou uma m…, mas aceito que outros possam gostar. Os Infiltrados é o melhor da fase ‘Leo’, mas é uma cópia do Andy Lau. O Aviador não vale Os Insaciáveis, de Edward Dmytryk, A Ilha do Medo é o ó da manipulação e O Lobo de Wall Street, desculpem-me, mas me permito, como Jeanne Moreau em Jules e Jim,, de François Truffaut, duvidar da moralidade de quem  gosta do filme. Não é só ruim, é abominável. Mas por que estou exumando Scorsese das minhas cinzas (das dele)? Não há de ser por Inferno, que ele vai adaptar de um romancista japonês, outro projeto com o qual sonha há 20 anos. Ai, meu Deus, tremo só de pensar. A questão é que está em cartaz o melhor filme de Scorsese em anos – décadas! -, e que só é bom porque não foi ele quem fez. Noite sem Fim/Run all Night , de Jaume Collet-Serra, com Liam Neeson, Ed Harris e o poderoso/maravilhoso Joel Kinnaman – o RoboCop de José Padilha – é o que os filmes de Scorsese deveriam ser, mas não são, exceto no imaginário dessa gente que consome toda m… que ele produz. Como depois de amanhã se comemora o centenário de nascimento de Orson Welles, aproveitei e comprei em Los Angeles o livro My Lunches with Orson, de Peter Biskind, que reúne gravações das conversas do criador de Cidadão Kane com Henry Jaglom, ao longo de 1983 e, depois, de 1984 e 85. Comecei a ler no avião, no voo de volta, e não consegui parar. É um livro que deveria ser editado no Brasil. Welles emerge do livro como o sujeito mais boquirroto de Hollywood, um fofoqueiro profissional que não poupa ninguém (exceto ele, claro). E Welles assume que é preconceituoso – diz que não seria humano, se não fosse, e o pobre Jaglom, antecipando o politicamente correto, passa o tempo todo dizendo ‘não Orson, Não pode ser’. As histórias que ele conta… De cara, diz que não aperta mais a mão de ninguém porque não quer morrer de aids. A mão! Na sequência, demole os irlandeses e diz que Katharine Hepburn o odiava por seu desprezo por Spencer Tracy. Mas ele poupa John Ford, a quem venerava, mesmo cometendo o absurdo de não considerar Rastros de Ódio o grande filme que é. Welles também não poupa Alfred Hitchcock e me pergunto como ele reagiria se soubesse que Um Corpo Que Cai/Vertigo iria desbancar sua ‘comédia’ – é assim que se refere a Kane – como melhor filme de todos os tempos. Já que comecei com Scorsese, ri muito quando Welles, sem a menor cerimônia, esculacha o cinema dos mentores de ‘Marty’, a dupla Emmeric Pressburger/Michael Powell, e ainda diz que o primeiro era o menos ruim dos dois, quando Scorsese baba por Powell, ex-marido de sua montadora, Thelma Shoonmaker. Sobre o teatro inglês, ele conta como Laurence Olivier era um monstro, tendo humilhado Charles Laughton em frente de toda a sua companhia, chamando-o de ‘amador’. Laughton era gay e morria de medo de ser desmascarado por isso, e enquanto isso Peter Finch ‘comia’ a senhora Olivier, Vivien Leigh, porque, afinal, alguém tinha de fazer isso. A crueza como Welles conta essas histórias…. Não sei até que ponto, como Federico Fellini, ele era um mitômano, mas li fascinado e horrorizado. Nem Kenneth Tynan, em Hollywood Babilonia, fez um retrato tão devastador dos bastidores do cinema. Sunset Boulevard, pobre Billy Wilder, é fichinha. E Welles confessa que não liga para o cinema. Gosta de fazer filmes, do processo. O resto é balela. Há um momento em que Welles e Jaglom conversam e Richard Burton interrompe os dois, dizendo que Elizabeth Taylor gostaria de saudar Orson. Ele corta -‘Não vê que estamos ocupados?’ Jaglom, o correto, observa que Welles não precisava ter sido tão grosso. Ele retruca que não tem paciência com celebridades, mas depois conta como curtiu seu momento de vip, que não foi por Cidadão Kane nem por qualquer dos outros filmes que dirigiu, mas pelo Harry Lime de O Terceiro Homem, de Carol Reed. Welles conta que nunca foi tão assediado na vida. E desmente a lenda. Toda a minha vida ouvi que Reed teria sido um marionete de Welles, que teria sido o verdadeiro diretor de The Third Man. Ele minimiza o aporte de Graham Greene no roteiro, mas salvaguarda Reed, mesmo destacando que era um diretor bom de ouvir, e que sabia aproveitar o melhor para fazer seus (grandes) filmes.

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