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Ordem no caos, ou caos na ordem?

Luiz Carlos Merten

06 Julho 2015 | 13h00

Jantei ontem à noite com Lúcia e Fabi no Rascal da Santos e, na sequência, fui ver Um Pouco de Caos na Reserva Cultural. Foi engraçado. Estou tão acostumado a ver  a Reserva lotada no fim de semana que, quando a bilheteira me pediu que escolhesse o lugar, fui logo nos dois ou três que deviam estar sobrando. Não – era o público da sessão. Apareceram mais uns gatos pingados, mas era um número bem reduzido e certamente abaixo do que o conjunto de salas normalmente faz. No sábado, quando fui entrevistar Manuel Basoalto, diretor de Neruda, no Itaú do Frei Caneca, Ademar de Oliveira já me havia dito que o mercado anda catastrófico, e impermeável às previsões. Muitos Homens Num Só, de Mini Kertis – fico sempre em dúvida se é com s ou não ; preciso checar -, está indo mal e é um filme bem bonito. Jurassic World estourou, mas foi assim em todo o mundo. Quando as previsões otimistas era de que o filme fizesse um milhão de espectadores, ele já estava quase dobrando o número. Poderoso Chris Pratt. E Colin Trevorrow – o diretor já bateu pé que não faz o 2. Será que vai resistir à pressão. Mas, enfim, Um Pouco de Caos. O filme é dirigido e interpretado por Alan Rickman. De cara, pensei comigo – êpa, temos aqui alguma coisa. Rickman inicia seu filme na contramão de A Tomada do Poder por Luís XIV. Na contramão do clássico que assinalou o encontro de Roberto Rossellini com a TV, Rickman mostra o despertar do rei. Rickman é quem faz o rei sol. Abre o olho e a corte toda está reunida à porta. Ele se levanta e é montado, digamos assim, para encarnar o poder do Estado. Peruca, manto etc. No filme de Rossellini, vemos o contrário. O imponente rei  faz o que faz – toma o poder, afirma a força do Estado que encarna – e, no final, na hora de dormir, os lacaios o ‘desmontam’ e ele termina parecendo um homenzinho bem insignificante. O filme de Alan Rickman também tem esse momento ‘inverso’. O rei adormece e Kate Winslet o toma pelo dono da chácara aonde veio recolher arbustos. Ela é jardineira. É contratada por Mathias Schoenaerts, o arquiteto do rei, para construir uma fonte. O arquiteto, Le Nôtre, existiu. A personagem feminina é fictícia. O projeto de Kate é, como dizem os norte-americanos, ‘exquisit’. Diferente, é feito de elementos díspares, o pouco de caos que só no final vemos que pode produzir um efeito harmônico na praça com fonte. É o tema de Alan Rickman. O caos da corte, do mundo, da vida. E a necessidade de as pessoas se organizarem. Há um momento muito interessante. O rei detesta ouvir falar de morte, e as mulheres se reúnem na alcova de sua favorita para dar voz às suas dores. A mais velha do grupo é interpretada por Phyllida Law. Mãe de Emma Thompson (na vida), ela já foi atriz, contracenando com a filha, do longa anterior de Rickman, Momento de Afeto. Eu gostei de Um Pouco de Caos, outro(s) poderá/poderão não gostar, mas esses ingleses são f… Certos momentos de Rickman, a participação de Phyllida Law – e Kate Winslet, e Stanley Tucci como o irmão gay do rei -, são todos bons demais. A cena em que a mulher de Tucci fala para Kate da bichice do marido e diz que isso não o impediu de fazer muitos filhos nela e com ela, nem o impede de ser corajoso na guerra, é de uma justeza que, depois disso, você não olha mais o personagem do mesmo jeito. Vão lá ver, encham a sala. Não reclamam que estão cansados de mais do mesmo? É bom variar, mas Um Pouco de Caos, aqui no finalzinho, me lembrou alguma coisa de Vatel, de Roland Joffe, sobre o banqueteiro do rei. Vou ter de interromper o post porque tenho uma entrevista por telefone que já está atrasada. Depois, eu volto.