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Tiradentes (1)/Operários, brava gente

Luiz Carlos Merten

21 Janeiro 2018 | 13h30

TIRADENTES – Cá estou, na 21.ª Mostra de Tiradentes, que começou na sexta. Cheguei ontem à tarde, em pleno Cortejo das Artes, e foi lindo, uma espécie de pré-carnaval, com direito a Congada, que me encanta. Vi o Cortejo da porta do hotel, na Rua Direita, e emendei, na sala de imprensa, com a coletiva de Babu Santana, o homenageado deste ano. Grande Babu. Bastaria citar o Ed Motta de Mauro Lima para dar conta de seu imenso talento. Sem ofensa, Babu tem cara e físico de brutamontes. Poderia estar condenado a um tipo de personagem, mas ousa. Sai da curva. Faz um gay em Café com Canela, o longa de Ary Rosa e Glenda Nicácio. Como ele diz, faz um homossexual, não a típica bichinha pão com ovo, e sai-se muito bem, como sempre. Babu pode tudo como ator. Shakespeare, por que não? Mas por que teria de ser só Otelo? Emendei com Arábia, o longa de Affonso Uchoa e João Dumans, que amo. Foi minha quarta vez, e sempre descubro coisas noivas, ou faço as mais loucas conexões. É a minha função, nem digo como crítico, mas como espectador. Um filme sobre um operário brasileiro. Como pode dialogar com a história de um garoto em plena explosão dos hormônios, e da descoberta da homo-afetividade, num meio intelectual europeu, em Meu Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino? Pois dialogam no meu imaginário, e a fala final do operário, sobre a dificuldade de amar e o desencanto da sua (não) inclusão social, poderia ser o que Elio não diz, mas pensa, ao olhar para as chamas, e para a gente, no desfecho de Me Chame. Falei no post anterior do mistério de Timothée Chalamet. Poderia falar horas no mistério de Aristides de Souza. Que que é esse cara? Lembrei-me de Ricardo Guiraldes, Don Segundo Sombra. ‘Me fui como quien se desangra.’ Aristides atravessa Arábia como quem verte sangue, e seu romance (irrealizado) com Ana é dos mais pungentes do cinema. Puta ator, puta interpretação. Já tenho meus melhores atores do ano – Magali Biff e ele. Dois operários – ela, em pela Janela, de Caroline Leone. O tema da Mostra de Tiradentes deste ano é Chamado Realista, o jovem cinema brasileiro que busca novas formas estéticas de contato com o real, e como informam Cléber Eduardo e Lila Foster no seu texto de apresentação, propõe uma representação que traz, na forma e estilo, um desejo de dramaturgia baseado, no caso da ficção, no lastro das experiência de homens e mulheres. Operários – trabalhadores. O cinema brasileiro que mais me interessa atualmente é o de três filmes, quatro autores – Pela Janela (Carol Leone), Arábia (Uchoa e Dumans) e Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano. Todas as questões estéticas, comportamentais, incluindo erótico/sexuais, políticas, etc, passam por esses filmes. Operários, brava gente. Trabalhadores do Brasil. Que Arábia ainda seja o melhor de todos me toca profundamente. O filme começa com um garoto e prossegue com a narrativa em primeira pessoa no diário que ele descobre. As duas terminam por se interceptar, mas ontem, mais que nunca, no fecho do filme, quando a tela escurece, lembrei-me de Os Deuses e Os Mortos, de John Huston, e só depois me dei conta de que Arábia também é (livremente) adaptado de James Joyce. Na condução da mesa de hoje, Francis Vogner falou na Odisseia, mas ninguém, nem ele, falou num personagem essencial dessa epopeia íntima – Barreto. De cara, quando Cristiano/Aristides de Souza chega à cidadezinha atrás do primo, ele encontra Barreto, que diz que andou durante 30 anos para voltar ao lugar de origem, à lagoa em que se banhava quando menino. Barreto organizou os trabalhadores nas plantações de mexirica, esteve nas greves do ABC, conheceu Lula! Em comparação, durante seus dez anos de errância, Cristiano leva essa vida ‘pequena’, mas o que ele fala de cansaço, de juntar os operários que respiram aço, coloca sem discurso, e de forma ficcional muito forte e viva, a questão da mudança da Previdência que está em curso no País. O garoto de Corpo Elétrico boia no mar, à deriva. Cristiano verbaliza uma ação que talvez não empreenda. Rosália, retornando dos mortos, está voltando para casa, sem perspectivas imediatas, mas com o mundo pela frente. O empoderamento feminino? A Aurora só começa amanhã, mas já estou amando Tiradentes 2018.