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Onde está Bunny Lake?

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2012 | 23h59

Em 1950, Terence Fisher ainda engatinhava na carreira e não se havia convertido no diretor de horror por excelência da empresa Hamer.Foi quando fez ‘So Long at the Fair’, que passou no Brasil como ‘Angústia de Uma Alma’. Jean Simmons e o irmão vão para a grande feira de Paris, ele some e, quando procura por ajuda, ela topa com uma conspiração do silêncio. É como se o irmão nunca tivesse existido e fosse só criação de uma mente enferma. Felizmente, o jovem Dirk Bogarde dá crédito a Jean e o mistério – o suspense – ganha um toque de romance. O próprio Alfred Hitchcock adorava ‘So Long at the Fair’, talvez porque a história evoca o desaparecimento de Dame May Whitty em ‘The Lady Vanishes’, A Dama Oculta. Tudo muito legal,m mas você deve estar se perguntando – por que exumar toda essa história e um filme que quase ninguém conhece? Para falar de outro que está sendo resgatado em DVD pela Magnus Opus. A matéria está no ‘Caderno 2’ de hoje, mas volto a ‘Bunny Lake Desaparecida’ para mudar um pouco o enfoque e acrescentar novas informações. ‘Bunny Lake Is Missing’ é de 1965 e foi lançado no Brasil como ‘Bunny Lake Desapareceu’. Na época, foi recebido como uma quebra na sequência de grandes filmes com que Otto Preminger vinha abordando o tema do conflito do homem com a instituição, ou as instituições. Justiça, Revolução, Política, Igreja e Exército forneceram o quadro dramático para ‘Anatomika de Um Crime’, ‘Exodus’, ‘Tempestade Sobre Washington’, ‘O Cardeal’ e ‘A Primeira Vitória’. Preminger havia descoberto a Panavision, a tela ampla, aperfeiçoara seu gosto pelo plano-sequência e a amplidão do quadro servia a seu propósito de fazer um cinema ‘grande’, capaz de abrigar a análise do processo democrático em andamento. E, aí, inesperadamente, surgiu a história da americana em Londres, Carol Lynley, que procura a filha na escola da garota e não há filha nenhuma. Surge o irmão, Keir Dullea, e levanta a suspeita de que Carol nunca teve filha, é louquinha. ‘Bunny Lake’ é quase um remake ou, pelo menos, uma variação de ‘Angústia de Uma Alma’, da mesma forma que surgirá depois, bem mais recentemente, ‘Plano de Voo’, com Jodie Foster, quase um remake do clássico de Preminger. Corrijo a informação de que o filme surgiu ‘inesperadamente’. Fui procurar o que diz Chris Fujiawara em sweu livro sobre o grande diretor – ‘The World and Its Double/The Life and Work of Otto Preminger’ – e descobri que ele havia comprado os direitos do livro de Evelyn Pipe (pseudônimo de Merrtiam Modell) em 1959, encomendando de cara a adaptação para Ira Levin, autor de ‘A Origem do Mal’, que deu origem a ‘O Bebê de Rosemary’, mas não gostou do roteiro e o repassdou a Dsaltopn Trumbo, também não gostou e foi aí que entraram Penelope Mortimer e seu marido John. Foi um dos roteiros mais complicados da casrreira de Preminger e, lá pelas tantas, ele quase desistiu da direção. Chegou a anunciar que somente produziria o filme, mas a Columbia insistiu e ele cedeu. Fez, embora inusitado no contexto de sua obra da época, um de seus maiores filmes – e um retorno à vertente noir de ‘Laura’ e ‘A Ladra’, Whirlpool, que são talvez seus dois filmes mais próximos, em estilo, de ‘Bunny Lake’. Revi ‘Bunny Lake’ para escrever o texto do ‘Estado’ e o que maisd me impressionou foi o uso da câmera, e da fotografia em preto e branco, para a criação de uma atmosfera. O próprio Preminger nunca subestimnou o alcance de ‘Bunny Lake’ e chegou a destacar sua relevância social pelo simples fato de que Carol Lynley faz uma mãe solteira, mas a verdade é que a história lida também com homossexiualismo, incesto e (i)legitimidade. Nos anos e filmes anteriores, Preminger já vinha trabalhando com Saul Bass como consultor visual e autor das admiráveis sequências de créditos que marcaram época. A ideia de ‘Bunny Lake’ era tão simples quanto poderosa. O desenho de uma criança que ia sendo recortado e arrancado para que aparecessem os nomes da equipe técnica e artística, mas também para metaforizar a situação particular de Bunny, que, afinal, não se sabe se foi sequestrada, e se existe ou não. Para muita gente, esse foi o último grande filme de Preminger, independentemente de ser noir ou não. Ele ainda fez mais seis, mas a opinião dominante é que foi perdendo a mão e entrou em irreversível decadência. Na verdade, sabe-se hoje que Preminger, na fase final de sua vida, foi vítima de Alzheimer. Quando ele se manifestou e começou a turvar seu processo criativo é coisa ainda sujeita a controvérsia, mas existem defensores para ‘Diga-Me Que Me Ama, Junie Moon’, com Liza Minnelli, e os dois últimos filmes que fez, recebidos a pancadas na época, hoje são revalorizados, especialmente ‘O Fator Humano’, que se baseia em Graham Greene. Foi uma emoção e tasnto rever ‘Bunny Lake Desapareceu’, agora renomeado como ‘Bunny Lake Desaparecida’. Carol Lynley era contratada de Preminger (e também está em ‘O Cardeal’). Keir Dullea, que ainda não havia feito o astronauta de Stanley Kubrick – ‘2001’ -, havia sido marcado pelo garoto autista de ‘David e Lisa’, de Frank Perry. Laurence Olivier faz o policial que investiga o caso e tem o insight decisivo na cena do balanço, no parque. Finlay Currie e Noel Coward também tem papeis importantes. Não sei se o espectador que vê ‘Bunny Lake’ hoje faz a mesma viagem que eu. O filme já estava no meu imaginário. Rever foi como visitar um sítio já conhecido, mas que não esgotou suas novidades.

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