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Onde está a curva em Aliança do Crime?

Luiz Carlos Merten

15 de novembro de 2015 | 10h37

Todo mundo aposta que Johnny Depp vai para o Oscar com Aliança do Crime. Uma possível indicação para o prêmio e o sucesso do próximo Piratas do Caribe o trarão de volta do limbo em, que se encontra. Bom pra ele. O filme explicita o horror que virou o mundo. Um agente do FBI une-se a um pequeno criminoso irlandês de Boston para derrotar a Máfia italiana que domina a cidade. O agente também é irish. Mais importante que a letra da lei é o código de honra dos ancestrais. Amizade. Tenho ouvido muito uma frase – em Xatô, em Big Jato. Amizade de c…é r… O criminoso de Aliança do Crime, investido na condição de delator premiado, usa seu novo status e as informações de cocheira para co9meçar a mandar na cidade. E Hollywood, depois de Ponte de Espiões, de Steven Spielberg, fez mais um filme sobre o Brasil atual. Muito interessante. Mas o filme tem seus problemas. ‘Johnny’ poderá até ir para o Oscar. Fez tudo direitinho que a Academia gosta. Transformou-se, ficou irreconhecível. Mas o personagem é um tanto monocórdico. Começa Demônio e termina Satanás. O personagem que se transforma dramaturgicamente, que tem ‘curva’, é o agente do FBI. É interpretado por Jol Edgerton, que foi o faraó no Exodus de Ridley Scott. Deuses e Reis. Deus, Jeová, era uma criança caprichosa e cruel, lembram-se? Joel vai para o Oscar? E, se for, será como melhor ator ou coadjuvante? Devia ser ator, mas o astro, enfim, é Johnny. Hollywood me cansa, às vezes. Gostei mais de outro filme do diretor Scott Cooper, Tudo Pela Justiça, com Christian Bale e Casey Affleck como irmãos. Boa parte dos conflitos de Aliança do Crime já estava lá – criminalidade x legalidade, relações de afeto, de sangue, amizade, honra. E o tom documentário, a ausência de glamour também eram mais fortes em Tudo pela Justiça. Tenho visto algumas peças, mas não vou escrever sobre elas agora. Quero só voltar à caixa de westerns da Versátil. Faroeste 2. Já falei dos filmes de John Ford, Raoul Walsh e Jacques Tourneur. Faltam os de Budd Boetticher e Samuel Fuller. Como todo (grande) westertn de Boetticher, O Resgate do Bandoleiro usa o bandido para refletir sobre o lado escuro do mocinho. Randolph Scott é um homem ético com tendências violentas. Richard Boone é violento com tendências éticas. Randolph terá de destruir Richard, seu lado ruim, para poder recomeçar a vida com Maureen O’Sullivan (mãe de Mia Farrow). Curioso, é porque sacrifica a mulher ao amigo que Joel Edgerton perde sua alma em Aliança do Crime. Renegando Meu Sangue tem uma estrutura cíclica como The Big Red One, o filme de guerra autobiográfico de Fuller. Renegando começa com um tiro que não deveria ter sido dado, porque, quando isso ocorre, a Guerra Civil já acabou, mas Rod Steiger ainda não sabe disso. O Sul já se rendeu ao Norte quando ele atira no soldado nortista, a quem salva, mas guarda a bala e no final a usa de novo, no mesmo soldado, só que em circunstâncias diversas. Renegando Meu Sangue é sobre um homem, que perde seu lugar no mundo. Reencontra-o entre os índios, outra comunidade, outra cultura. Nunca me havia dado conta sobre como Dança com Lobos, de Kevin Costner, tem esse lado herdeiro de Fuller, e de Renegando Meu Sangue. Fuller era ‘a hell of’ a roteirista. Numa cena, Rod Steiger, que faz o protagonista, dá uma gaita de boca ao menino surdo-mudo que vive com Sara Montiel – a futura Violetera faz a protagonista feminina, pele-vermelha. O presente parece não fazer sentido, mas fará, e numa cena de muita intensidade. Gostei de rever Renegando Meu Sangue. Fuller não acreditava em heróis, só em sobreviventes. Na última reprise do filme nos cinemas, Charles Bronson, que tem um pequeno papel, havia virado astro com seus personagens compulsivos, sempre com desejo de matar. Rod Steiger, apesar do Oscar – que deveria ter recebido por O Homem do Prego, de Sidney Lumet, mas ganhou por No Calor da Noite, de Norman Jewison -, nunca foi chamariz de bilheteria e toda a publicidade foi em torno do índio de Bronson. Ou seja, Edgerton vai para coadjuvante, isso é – se for.