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Onde andará Sergio Leemann?

Luiz Carlos Merten

12 de maio de 2020 | 11h49

Mesmo para os meus padrões, o post anterior sobre Zizek – Capra e Fellini – foi quilométrico. E olhem que cortei um trecho antes de salvar. Zizek tem aqueles acentos que nunca consigo reproduzir. Fui conferir e encontrei na rede uma polêmica dele com o chanceler Araújo. Esse, quando tenta mostrar que é intelectual, não acerta uma. Patético! Havia tirado um sarro, mas ficou ainda maior o texto, e cortei. Fellini! Margarida Oliverira me mandou e-mail sobre um curso de cinema online, As Máscaras de Fellini. No release, ela diz que é uma oportunidade para quem tem interesse em se aprofundar nas múltiplas camadas da obra do diretor e descobrir aspectos encobertos pela uniformidade do termo ‘felliniano’. Uau! Acho que deveria fazer (o curso) para ver se descubro a tal profundidade de Fellini. Em termos de fruição estética, nada supera para mim as cenas do menino Guido com a Saraghina em Oito e Meio – La Rumba! -, mas gostaria de dar minha contribuição à ‘profundidade’. O maior Fellini talvez seja E la Nave Va, mas as maiores cenas isoladas que ele filmou podem muito bem ser de A Doce Vida. Sílvia/Anita Ekberg com Marcello na Fontana di Trevi, o beijo, a interrupção do fluxo de água, o transeunte. A água ali é decisiva, como o signo que une Marcello e Steiner/Alain Cuny, no diálogo dos dois, e o suicídio de Steiner, o mais lúcido e angustiado dos personagens de Fellini, pode muito bem ser o futuro de Mastroianni, quando se cansar da festa – sexo, sexo, sexo – da dolce (amarga) vita. O curioso é que, ao escrever ontem sobre A Estrada da Vida, ia dizer que o filme me provocou irritação, mas achei que seria demais. Agora pela manhã, fui procurar a antologia dos grandes filmes de Georges Sadoul e ele foi mais incisivo do que eu. Lá está – ‘Esse filme por vezes irritante’. Mudando de gato para lebre, fiz no outro dia um texto sobre West Side Story para o Clássico do dia. Robert Wise! Nunca entendi o que os críticos da Cahiers, na fase de capa amarela – que só conheci numa reedição em inglês, da Harvard University Press, textos selecionados e traduzidos -, queriam dizer quando não consideravavam Robert, ao contrário do nome, ‘wise’. Eu acho que ele era wise até demais. Sensato, aplicado, o que num filme ainda inédito de Hong Sangsoo, Hotel by the River, é visto como defeito. O pai, no Sangsoo, é um grande poeta, o filho, cineasta, não chega a ser um autor, mas é aplicado. É como vejo o Wise. Ele ganhou duas vezes o Oscar, por seus musicais (Amor, Sublime Amor e A Noviça Rebelde), mas criou fama pelos filmes sociais, em preto e branco, muitas vezes com acompanhamento de jazz – Punhos de Campeão, O Dia em Que a Terra Parou, Um Homem e Dez Destinos, Quero Viver, Homens em Fúria. Wise era o típico cineasta de Hollywood com consciência social, fazendo filmes ‘contra’. Contra tudo. Perigo atômico, corrupção no boxe, pena de morte, carreirismo dos executivos, etc, etc. Mas por que estou desencavando Robert Wise? Encontrei no outro dia um livro do qual não me lembrava – Robert Wise on His Films (From Editiing Room to Director’s Chair), da Silman-James Press, de Los Angeles (in cooperation with the Director’s Guild of America), de 1995, sabem por quem? Sergio Leemann, que lá atrás foi diretor do Canal Brasil. Ele me havia enviado o livro, com uma dedicatória muito afetuosa, mas confesso que só li agora. Wise comenta cada um de seus filmes, e todos. Achei muito interessante, porque a leitura confirmou a impressão que sempre tive. Wise pode muito bem ter sido o Martin Scorsese de sua época. Aplicado, mas falta algo. Lendo o Wise, que veio da montagem, tive uma sensação. Ele se preocupava com tudo. O roteiro, a fotografia, a direção de arte, a interpretação, a música. Teve até Gerry Mulligan para criar o clima de seus filmes. Tudo isso criava uma espécie de realismo de superfície, mas, no retrospecto, falta profundidade. Era um cinema de fachada. A profundidade a que me refiro não é só a de campo, é mais. Falta textura. Onde andará Sergio Leemann? Teríamos muito o que conversar, desses anos todos. E sobre Wise, então!

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