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Olheu aqui na sinuca

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2017 | 23h39

TIRADENTES – Estou, como se diz, numa sinuca. Vi o filme de Frederico Machado, Lamparina da Aurora, e não posso dizer que gooosteiii, mas o filme, que vou debater amanhã – quinta, 26 -, certamente mexeu comigo. Três personagens, um casal maduro e um homem mais jovem, que pode ser filho ou um estranho. Há uma insinuação de triângulo e um a um os personagens vão morrendo – sendo mortos -, mas estão sempre vivos porque o filme é impulsionado pela poesia do pai do diretor, e é uma poesia que fala em corpos pútridos, em mortos que renascem. Fiquei intrigado. Lamparina, de uma forma que não consigo explicar, me evocou O Ano Passado em Marienbad, também com dois homens e uma mulher, mas lá um deles tenta convencê-la de que se conheceram e tiveram um affair no ano passado e o outro representa a morte. Marienbad, acho que foi Enéas de Souza quem escreveu isso, há priscas eras, conta uma história muito tradicional de triângulo que Alain Resnais e seu roteirista, Alain Robbe-Grillet, resolveram desconstruir, embaralhando tempo e espaço. É um filme plástico, bonito, mas pelo qual tenho de admitir que não tenho muito apreço. De Resnais, prefiro Hiroshima, Meu Amor – sempre! – e Providence. De qualquer maneira, o filme, exibido na mostra Olhos Livres, me intrigou e é muito mais do que posso dizer sobre o programa da noite na Mostra Aurora. Havia me congratulado com o curador Cleber Eduardo pela Mostra Aurora deste ano ter começado em tão alto nível, com Baronesa. Cleber me lembrou que A Vizinhança do Tigre, que amo, também abriu a mostra em seu ano e, coincidência ou não, Affonso Uchoa, autor do Tigre, é montador do longa da estreante Juliana Antunes. De qualquer maneira, talvez tenha me precipitado no elogio à excelente qualidade da Mostra Aurora deste ano. Pode ser – espero! – que venha mais coisa boa por aí, mas os discursos antigolpista de Thiago B. Mendonça e anticapitalista de Renan Rovida apresentando os filmes deles, Um Filme de Cinema e Sem Raiz, bateram comigo e criaram expectativas que, nem de longe, foram satisfeitas. Sem Raiz tem uma coisa potencialmente interessante, que é prosseguir com o discurso das mulheres de Baronesa. O filme divide-se em segmentos – Sem Emprego, Sem Lucro, Sem Propriedade, Sem Comunidade – e em todos as protagonistas são mulheres que enfrentam a hostilidade do mundo. Algumas cenas são boas, mas o filme me pareceu fraco, como o do dia anterior. E tem coisas com as quais me incomodo, ou com as quais implico. No primeiro segmento, a mulher está vivendo à luz de velas, contando os trocados, mas não dispensa o celular. E o coletivo enche o peito para dizer que é anticapitalista? Eu fiquei no Sheraton em Mar del Plata pelo conforto e não tenho celular de raiva. Quando vejo essa gente dependente do celular fico puto porque são otários, produzindo conteúdo de graça para os bilionários que controlam as redes sociais e possuem os direitos do Face. Eu, hein? Por enquanto, estou com a Baronesa, e não abro.