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Olhem que história!

Luiz Carlos Merten

27 de dezembro de 2013 | 10h35

Falando em atores – no post anterior -, lembrei-me de um relato que li nos últimos dias. Jean-Claude Brialy sobre a gênese da nouvelle vague e a sua entrada no movimento. Ele conhecia não sei quem, que era amigo de Godard. Eram todos duros, sem um puto no bolso. Arranjaram um carro e desceram para Cannes, para o festival. No carro estavam Godard, Chabrol e acho que Rivette. Na Côte, foram à casa de Renoir, onde já estavam Truffaut e Pierre Kast – assistente do mestre e nova-onda esquecido. O incrível é que Truffaut e ele morreram no mesmo dia e o pobre Kast não teve direito as uma linha de obituário, porque todo mundo estava enterrando o amado François. Renoir desculpou-se. Estava com a casa cheia, não poderia acomodar mais gente, mas não se importaria se os chegados se arranchassem como pudessem. Brialy conta que, durante toda a viagem de Paris a Cannes, os jovens diziam como iam revolucionar o cinema, discutiam suas preferências. Ele ouvia, mudo e consciente de que nada tinha para acrescentar. Chez Renoir, descobriu que se apaixonara por aquela família chamada cinema e queria fazer parte dela. Já que não seria pelo intelecto, resolveu bancar o palhaço, porque todo grupo tem um. Fez com que todos rissem. Virou da turma. Chabrol deu-lhe papeis importantes, Godard idem. Brialy virou um dos astros da nouvelle vague, chegou a diretor. Fez Eglantine, sobre o universo de uma idosa e, na contramão, viajou à infância com a Condessa de Ségur, em Les Malheurs de Sophie. A partir de determinado momento foi fazer TV. Virou entrevistador. Suas transmissões de Cannes fizeram história. E ele conta como – achei tão bonito – ouviu de Robert De Niro, de Al Pacino e Harvey Keitel que, se não tivesse havido Jean-Paul Belmondo em Acossado (de Godard), nunca teriam sido atores.

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