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Olhem aonde me levou uma troca, Jonathan por Joseph Levine

Luiz Carlos Merten

24 de junho de 2019 | 10h45

Não fazia a menor ideia de quem era Jonathan Levine, que assina Casal Improvável. Fiz uma pesquisa agora pela manhã, procurei por ‘imagens’ e fiquei pensando com meus botões que, na Hollywood antiga, Levine, com seu tipo rude, seria o galã, substituindo muitos dos atores com quem trabalhou, embora a inadequação física – o jeitão moleque de quem fica adulto sem amadurecer de Seth Rogen – seja essencial para o humor que ele faz. O detalhe é que, no automático, em vez de Jonathan, digitei Joseph e veio a filmografia do lendário produtor. Joseph E. Levine! Menino judeu, lembro-me de uma entrevista em que ele dizia, da própria infância, que nunca tivera um só dia feliz. Muito cedo, assumiu o encargo de sustentar a família, e desempenhou várias funções até que o cinema surgiu em sua vida, e ele adquiriu uma pequena empresa distribuidora de filmes. Sob a rubrica ‘Joseph Levine Presents’, revolucionou o mercado dos EUA lançando as aventuras japonesas da série Gojira, isto é, Godzilla, e filmes mitológicos italianos. Um dos primeiros, de 1954, o Átila, Flagelo de Deus de Piero Francisci, com Anthony Quinn, iniciou sua parceria com os produtores Dino De Laurentiis e Carlo Ponti. A protagonista feminina era Sophia Loren e, anos mais tarde, entre um pirata Morgan, com Steve Reeves, e um Maravilhas de Aladdin, a versão com Terence Hill, Levine orientou, sem crédito, toda a publicidade que levou Sophia Loren, por Duas Mulheres/La Ciociara, a fazer história como primeira atriz estrangeira a vencer o Oscar falando o próprio idioma. Foi Levine quem contra tudo e todos, bancou a célebre imagem de Sophia como Cesira, prostrada no solo, o vestido rasgado, quando ela, na cena mais intensa do filme de Vittorio de Sica, depois que a filha é estuprada, persegue os soldados que cometeram o ato, até cair, vencida. O drama da 2.ª Guerra venceu o prêmio da Academia, deu prestígio a Levine e ele tomou gosto pelos filmes de arte. Distribuiu – Joseph E. Levine Presents – Longa Jornada Noite Adentro, de Sidney Lumet; Casamento à Italiana, de novo De Sica, com a dupla Loren/Mastroianni. Como produtor executivo, ligou seu nome a O Tigre e a Gatinha, de Dino Risi; A Primeira Noite de Um Homem, de Mike Nichols; O Leão no Inverno, de Anthony Harvey – que considerava seu melhor filme -; e Os Girassóis da Rússia, de De Sica, com a dupla Loren/Mastroianni (e aquele tema musical de Henry Mancini). E ainda produziu Os Insaciáveis/The Carpetbaggers, a versão camuflada da vida de Howard Hughes, com George Peppard, baseada no best seller de Harold Robbins e que eu, particularmente, creio que dá de dez no Aviador de Martin Scorsese; Harlow, a Vênus Platinada, a devastadora visão dos bastidores de Hollywood por Gordon Douglas, com Carroll Baker; e Chamam-me Trinity, o spaghetti western cômico de E.B. Clucher, pseudônimo de Enzo Barboni, com a dupla Terence Hill/Bud Spencer. Existem momentos fulgurantes que fazem parte do meu imaginário nesses filmes, e eu me lembro de Enéas de Souza descrevendo os lábios cor de uva de Carroll Baker na cena da morte de Harlow. Justamente Insaciáveis, Harlow e Where Love Has Gone – Escândalo na Sociedade, no Brasil. A fase chamada de sensacionalista de Levine. A ficcionalização do assassinato do gângster Johnny Stompanato, amante da estrela Lana Turner, pela filha da atriz, Cheryl. A crítica toda caiu matando naquele Dmytryk, que eu nunca mais revi. Trash/lixo foi a definição mais aplicada ao filme. Na época, fiquei impressionadíssimo pela qualidade da interpretação feminina. Joey Heatherton, a garota, Susan Hayward, a mãe, estrela de cinema, e Bette Davis, a matriarca, a avó. Susan/Davis, duas das maiores atrizes do cinema. Bad movies we like. Muita coisa que ele produziu/distribuiu talvez fosse – era mesmo – lixo, mas Joseph E. Levine, com sua empresa Avco-Embassy, foi personagem da minha experiência cinematográfica de infância e juventude. Ele próprio dizia que tinha no seu ativo quase 500 filmes, um recorde. Foi um personagem, e tanto. Uma frase dele que não vale só para o cinema. “You can fool all of the people if the publicity is right”, Você consegue enganar/manipular todo mundo, se a publicidade é boa/certa. E pensar que toda essa viagem começou por engano, porque troquei Jonathan por Joseph Levine (há também um ‘Joseph’ filósofo, só para sua informação). Não sei a quem possa ter interessado, se interessou, mas faço essas viagens com o maior prazer pessoal.

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