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Olha eu no teatro, O Leão (ruge) no Inverno

Luiz Carlos Merten

16 Junho 2018 | 10h35

Fui ver ontem O Leão no Inverno, a encenação de Ulysses Cruz da peça de James Goldman, no Teatro Porto Seguro. Foi uma experiência interessante. O teatro nunca fez parte da minha vida, como o cinema. Via peças com meu primo Milton Oliveira, quando garoto, em Porto. Com Dib Carneiro, a atividade tornou-se mais regular – frequente. Vamos ver agora nessa fase nova como fica. A série ‘O crítico de cinema vai ao teatro’ não pode parar. Não quero que pare. O Leão no Inverno virou filme de Anthony Harvey. Em 1968, o mundo estava mudando radicalmente, mas não para a Academia. Stanley Kubrick foi indicado para melhor diretor, mas sua odisseia no espaço – 2001! – não concorreu a melhor filme. O xaroposo musical Oliver!, de Carol Reed, venceu os Oscars de filme e direção. Não era de todo ruim. Tinha seus momentos, graças à direção de arte de John Reed e à coreografia de Onna White. Há 50 anos, Lion in the Winter foi execrado pelos mesmos motivos pelos quais é hoje amado. Há agora um culto ao filme, mas eu nunca esqueço a crítica de Paulo Perdigão no Guia de Filmes do antigo INC. Como tenho a coleção na minha estante, parei para procurar. Cá está. Perdigão se indigna com o que hoje arrebata o o público e até a crítica, que vê o filme por outro viés. No palco, de cara, um letreiro evoca Tolstoi, ‘As famílias são infelizes à sua maneira.’ E por trás da magnificência da realeza, o que o diretor Anthony Harvey, ex-montador de Kubrick, e seu elenco mostram é que reis e rainhas são pessoas comuns e, apesar das diferenças de época e costumes, seus dramas são tão ‘ordinários’ (e contemporâneos) quanto os mexericos de Peyton Place/A Caldeira do Diabo, de Mark Robson, que o crítico transforma em paradigma de vulgaridade. Uma celebração de Natal, e o rei Henrique II liberta a mulher, Eleanor da Aquitânia, e a reúne aos três filhos para fazer um anúncio – sobre quem, irá sucedê-lo no trono da Inglaterra. Lavam roupas suja, e Eleanor conta mais uma vez que foi amante do pai de Henry e que ele a servia muito bem na cama. Os filhos também têm sua cota de segredos, todos obcecados pela coroa e Richard aproveita para sair do armário, relatando sua ligação com o rei da França, que, aliás, presente à reunião, diz que o despreza e fez o que fez por dever de Estado. Tudo isso que estava na tela é transferido para o palco, numa encenação que, de cara, evoca o experimento teatral/cinematográfico de Louis Malle em Tio Vânia, como se O Leão no Inverno fosse uma leitura do texto de Goldman pelo elenco. Gostei médio, e a poesia das palavras propicia o tom naturalista da interpretação, que fornece a unidade dos atores, puxados por Leopoldo Pacheco, como o rei, mas da qual destoa, numa composição que não me convenceu muito, justamente Regina Duarte. Não pude deixar de pensar, e com todo respeito por Regina, como atriz de teatro, cinema e TV, que Francesca della Monica, que faz a preparação vocal dos elencos de Gabriel Villela, teria problemas com ela, com sua forma de respirar e colocar as palavras. Em 1968, Katharine Hepburn, que faz Eleanor, recebeu seu terceiro Oscar pelo papel, após os de Manhã de Glória, nos anos 1930, e Adivinhe Quem Vem para Jantar?, no ano anterior. ‘Kate’ ainda receberia um quarto Oscar – recorde de premiação para ator ou atriz – por Num Lago Dourado, nos anos 1980, mas a novidade de O Leão no Inverno foi que, dessa vez, ela dividiu o prêmio com a estreante Barbra Streisand, de Funny Girl/Garota Genial. O filme de Harvey ganhou mais duas estatuetas – roteiro adaptado, para o autor do texto, James Goldman, e melhor trilha (John Barry), outra estatueta compartilhada (por John Green, de Oliver!). Justiça seja feita, mas Paulo Perdigão, em sua cruzada contra O Leão no Inverno, não se furta a uma derradeira estocada no diretor, por não haver contido os esgares lacrimosos nem os tremores do rictus facial de Katharine Hepburn, o que me leva a supor que Regina, não sei, com seu trabalho de voz, talvez esteja buscando um equivalente para a vulnerabilidade dos tremores faciais da estrela, já que esses, recriados, passariam despercebidos no palco. Ulysses Cruz põe música ao vivo no espetáculo, mas faz tanto tempo que não vejo O Leão no Inverno que não sei (lembro?) o que isso tem a ver com a trilha premiada de John Barry. Taí o que seria atraente – a TV paga poderia reprisar o filme. Os jovens Anthony Hopkins e Timothy Dalton, futuro 007, fazem dois dos filhos. Peter O’ Toole rouba a cena como o rei. Indicado para o Oscar – uma das tantas vezes – perdeu para o Cliff Robertson de Os Dois Mundos de Charly.,