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Olha eu aqui, querendo sambar

Luiz Carlos Merten

01 de março de 2019 | 13h12

Ando fora do ar no blog, mas isso tem a ver com a minha semana intensa. Filmes, cabines, entrevistas. Hoje mesmo, às 8 da manhã, já estava no telefone com Leonor Silveira, a musa de Manoel de Oliveira, lembrando seus 19 filmes com o grande diretor – “Comecei adolescente com ele e terminei como mulher feita, mãe de família; Manoel foi muito importante na minha evolução como artista e pessoa” -, mas o assunto era Raiva, o longa que Sérgio Trévaux adaptou do romance de Manuel da Fonseca, Seara de Vento. Leonor, aquela aristocrata, faz uma mulher do povo, morta de fome e com um filho autista. Gostei muito, e aviso que teremos um debate na próxima sessão do Estadão/Belas Artes. Fiquem atentos, mas eu aviso a data, podem deixar. Amanhã, vou com a Lúcia e a Fabí para o Rio. Tudo menos repetir meu carnaval do ano passado – sozinho, ilhado na minha casa, com as ruas fechadas pelos bloquinhos e gemendo de dor. Passou, e mesmo que a perna ainda me doa não é mais aquele flagelo que não me permitia pensar. Viva a pegação! Hummm… Tenho namorado aquele cartaz espalhado pela cidade. Terreirão do samba, lá vou eu fazer amigos, como gostava de dizer Carla França. O louco é que, embora esteja indo para a folia, tenho feito matérias sobre o circuito alternativo, para quem não gosta da festa, e o cinéfilo que sou se regozija pela alta qualidade de filmes que estarão em cartaz em São Paulo – Um Elefante Sentado Queto, o legado de um jovem diretor, o chinês Hu Bo, discípulo de Bela Tárr, que se matou aos 29 anos, deixando esse filme – de quase quatro horas – que vale encarar; o documentário O Silêncio dos Outros, sobre as veias abertas da Espanha, as feridas da Guerra Civil e da ditadura franquista. Lei da anistia, barbárie, esquecimento – tudo a ver com o Brasil, sob Bolsonaro. Ainda esta semana, num evento em Itaipu, ele voltou a elogiar os governos militares e o ‘estadista’ Stroessner, que, como Franco na Espanha, se dedicou a manter o país atrasado. Meu Deus! A propósito, o ministro Paulo Guedes comparou o Chile à Suíça e também responsabilizou, pelo acerto, a ditadura de Pinochet, que escancarou o país para os garotos de Chicago fazerem seus experimentos econômicos. Vou ao Chile desde a época de Allende e, nem com todas as dificuldades daquela época, nunca vi o país tão desigual como agora. Os malls, porque eles não dizem shoppings, de Las Condes dão um baile nos Jardins, mas no Centro as pessoas reviram o lixo à procura de comida. Nunca havia visto e comentei repetidas vezes – com taxistas, garçons. Todos me falaram que a vida está cara, difícil, e ainda tem o problema das migrações, dos refugiados. Bolivianos, peruanos, até venezuelanos. Mas o grande problema, me contavam, é a migração interna. A miséria no campo é imensa, o que causa espanto, porque são extensas vindimias e plantações de frutas que são exportadas para todo o mundo, especialmente a China. Alguém está ganhando, sem dúvida. Suíça, é? Então, tá. Essa gente não é nem questão de humanidade. Não tem vergonha na cara.