Olha eu aqui!
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Olha eu aqui!

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2014 | 19h13

TIRADENTES  – Cá estou, desde ontem. A mostra começou à noite com a homenagem a Marat Descartes, seguida da exibição do novo filme de Marco Dutra, Quando Eu Era Vivo, que Marat interpreta com Antonio Fagundes e Sandy Leah. Já imagino a decepção dos que estão babando para falar mal da guria – e não é que ela é boa, além de linda? O problema é que nunca foi tão complicado chegar a Tiradentes. Recapitulando – minha quinta havia sido corrida, com filme – a cabine de 47 Ronin – e um monte de matérias para a edição de sexta do Caderno 2. Na sexta, antes de embarcar para BH – meio-dia -, tinha mais matérias para o Caderno 2 de domingo. Confins, o aeroporto de BH, não está passando por reformas. Está sendo reconstruído. Obrigar passageiros a passar por aquilo não é só vergonha – a gente paga, caralho, não pode ser tratado daquele jeito pelas instituições que cuidam de nossos voos e aeroportos. Mas o pior ainda estava por vir. Saímos pouco antes das 2 de BH chegamos quase 9 da noite em Tiradentes. Houve um acidente na estrada, o tombamento de uma carreta, e muitas partes da estrada também estão em obras. Acho muita graça dessas frases protocolares – desculpem pelo transtorno, no futuro vai ser ótimo. Ah é? Eles ganham para construir e, com certeza, economizam reduzindo operários e turnos. Enquanto isso, a gente perde dinheiro, no sentido de que tempo é dinheiro. Quero ver se as autoridades ou os donos das incorporadoras ficam presos com a gente no engarrafamento… Mas, enfim, assisti hoje a debates sobre os processos audiovisuais no cinema brasileiro atual, ao debate sobre a trajetória do homenageado. Agora à tarde, entrevistei Marco Dutra e Marat Descartes, porque Quando Eu Era Vivo já estreia na semana que vem. Adoro Tiradentes, a Mostra Aurora, mas confesso que, às vezes, os debates me cansam. Como crítico e jornalista, tendo a não superestimar o ‘processo’ e, aliás, o meu cinema de autor independe do processo. Tanto faz que seja 35 mm, digital, blockbuster, baixo orçamento. Se só o filme barato, democrático, improvisado fosse autoral, eu hein… O velho conceito do autoral, no Cahiers du Cinéma de capa amarela, era o diretor contra todos, principalmente o estúdio, expressando-se por meio da mise-en-scène. Depois, com as mudanças na revista, o conceito foi mudando. O diretor também tinha de ser roteirista, por aí. E, por falar em processo, Alfred Hitchcock dizia que filmar era passar o roteiro pela câmera, porque ele já tinha o filme pronto, decupado na cabeça, antes de rodar a primeira cena. Raras vezes na vida teve de improvisar – em Psicose, quando usou técnicas de TV – e fez todas aquelas obras-primas que os cinéfilos conhecem. Hitchcock ouvia todo mundo e não fazia nada que sugeriam. Houve casos em que deveria ter feito, talvez. Detesto generalizações, palavras de ordem. Zach Snyder é tão autor quanto Abedalltif Kechiche, e a se julgar pelas ‘denúncias’ contra o segundo, a quem admiro, é menos totalitário. O que sempre tento, e é um jogo arriscado, é combinar extremos. Cinema de processo e de mercado. Dias com Ele e Homem de Aço, por que não? Hoje, ouvia coisas que me pareciam sem pé nem cabeça e pensava – que pena que o José Alvarenga Jr. não esteja aqui. Quando conversei com ele, sobre a remontagem de Serra Pelada para TV, Alvarenga me falou coisas tão interessantes sobre autoria (num processo industrial como o da Globo). Mas é que Alvarenga tem um filho estudante de cinema, e o Godarzinho dele o problematiza com questões que são as que os jovens colocam nesses debates. Conversam, não só como pai e filho, mas como o profissional e o principiante. E o Alvarenga tem o filho como umas de suas bússolas, esse outro olhar. Quem sabe disso? Eu, porque falo com ele. Sobre o filme de Marco Dutra. Como dramaturgia e cinema de gênero, é um passo adiante de Trabalhar Cansa, mas ainda não entrei no clima. Admirei a evolução – o conceito da ‘casa’ no cinema do Marco é muito instigante, a mancha na parede em Trabalhar Cansa, o quartinho atulhado de Quando Eu Era Vivo -, mas fiquei frio. Liberar o quartinho, botar as coisas/objetos para fora, é dar vazão à loucura. Gostei disso, mas me exasperava porque o terror, o fantástico não funcionaram para mim. Conversamos sobre isso, e o Marco me fez uma confissão. Foi ver Azul É a Cor Mais Quente  (do Kechiche) e também não sentiu nada. Todo mundo o preparara para alguma coisa que ele não sentiu. O cinema é uma coisa maravilhosa por causa disso. Cada um reformula seu filme no inconsciente. O que me agrada não é necessariamente o que satisfaz o outro. E quem pode garantir que está certo? Eu, por exemplo, detestei o Lobo de Martin Scorsese. Ao chegar na sala de imprensa da Mostra de Tiradentes, havia uma Folha. Não sei quem achou O Lobo o melhor filme do Oscar. Deveria ganhar tudo. Nem fodendo. Pesquei uma frase. É muito bem escrito.O paradoxo do filme, para mim, passa por aí. Jordan/Leonardo DiCaprio fala o tempo todo. Só diz merda, que usa como ferramenta para vender. Na melhor cena do filme, a mulher o flagra na limusine com outra. Ele não tem, não sabe o que dizer. Cala-se, e é um alívio. Ela o cobre de pancada. O Lobo só é bem escrito no sentido de que o roteirista, Terence não sei das quantas, sabe que é melhor se calar quando não se tem o que dizer.

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