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Odisseias (a minha, principalmente)

Luiz Carlos Merten

10 de setembro de 2010 | 10h11

Ontem tive um dia agitado, muitas matérias, entrevistas e eu ainda queria voltar ao Cine Olido, para mais uma sessão do Cinefantasy. Aquele programa de curtas colombianos foi incrível, com coisas insólitas, para se dizer o mínimo. Tive imenso prazer em redigir a entrevista com François Ozon, o diretor de ‘O Refúgio’, no ‘Caderno 2’ de hoje. Gostei de falar com Nanette Burstein, a diretora de ‘Amor à Distância’. Ela falou muito em honestidade – sua comédia romântica favorita é ‘Annie Hall’, dos tempos em que Woody Allen era bom – e eu achei ‘amor à Distância’ bem honesto, além de me encantar com a química entre a pantera Drew Barrymore e Justin Long. A propósito, só eu não sabia que formam um casal. Terminei bisbilhotando a vida da dupla, a partir da conversa com Nanette. Mas tem uma coisa que quero postar. Cheguei aqui ontem na redação e havia este livro da Sextante, ‘A Odisseia de Homero’, de Gwen Cooper. A chamada de capa – ‘A história de um gato cego e destemido e as lições que ele me ensinou sobre o amor e a vida.’ Não li, mas pode ser interessante. Os capítulos são todos precedidos por versos do próprio Homero, ajustados à saga urbana do gato destemido. Homero me leva a Magoo, que vai ser ‘o’ personagem deste post. Havia, em Gonçalves, na Pousada Bicho do Mato, este belo labrador. ‘É cego, de nascença’, foi a primeira coisa que me disseram, daí o nome, em homenagem ao célebre velhinho das animações. O próprio Magoo canino é velhinho. Me encantava ver como ele corria e tirava fininho de árvores, pedras. E era carinhoso, o bicho. Um labrador ‘lambedor’. Num determinado momento, chegou um pessoal com uma cadelinha, que amarraram na porta de entrada da pousada (e do restaurante). Magoo veio todo faceiro, sacudindo o rabo. Tombou sobre a cadelinha e sentiu o cheiro. Imediatamente, fez-lhe a corte, como fazem os cachorros. Bichos liberam o instinto, não são reprimidos pela cultura. Fiquei ali dando uma de voyeur, vendo o Magoo todo refestelado. Não sei exatamente que ilações gostaria de tirar desse episódio, que nem ia relatar, mas ele ficou comigo. O Magoo, também. Me lembrei do Bolinha, na verdade seu nome era Django. Bolinha era o meu, nosso, cocker. Ficou com a Doris, quando nos separamos. Bolinha teve catarata. Era cardíaco, não podia ser operado. Foi perdendo a visão. Ficou cego. Mas seja por não ser de nascença, sua cegueira lhe dificultou, e muito, a vida. Ele perdia o sentido da direção, vivia se batendo dentro de casa. Chegou a um ponto em que sofria demais, se machucava, e foi sacrificado. Bolinha foi cremado. Deve ser a proximidade dos meus 65 anos (no domingo). Homero, Magoo, Bolinha. Quem me conhece sabe que estou usando esse trio para falar de mim, claro.

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