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Odete, que ainda vive, naquele vestido de bolinhas

Luiz Carlos Merten

04 de fevereiro de 2015 | 16h29

BERLIM – Estava saindo, como disse no post anterior, mas liguei para o jornal para dar conta de que estava instalado e recebi a notícia da morte de Odete Lara. Morreu hoje, aos 85 anos, no Rio. Odete Lara! Sempre achei um absurdo que o Festival de Gramado não a tenha homenageado. O que sei é que sua saúde há tempos andava precária e ela vivia reclusa. Filha de imigrantes italianos, Odete nasceu em São Paulo. Participou do primeiro desfile de modas do País, foi cantora. Muito jovem,  viveu uma tragédia devastadora, quando seus pais, os dois, pai e mãe, se suicidaram. No livro Eu Nua, Odete conta como se sentiu desamparada, e culpada. Não é fácil sobreviver a uma situação dessas. Virou atriz, e das maiores. Sua estreia foi num filme de Mazzaropi, O Gato de Madame, e ela viveu a fase do cinema paulistano dos anos 1950. Lembrei há pouco de Moral em Concordata, quando Maria della Costa morreu. Odete foi casada com Oduvaldo Vianna Filho, Euclides Marinho e Antônio Carlos Fontoura. Filmou com Walter Hugo Khoury, Glauber Rocha, e Fontoura. Com cada um fez dois filmes. Com Khoury, A Garganta do Diabo e Noite Vazia. Com Glauber, O Dragão da Maldade e Câncer. Com Fontoura, Copacabana Me Engana e A Rainha Diaba. Por volta de 1970, crítico jovem, eu era capaz de jurar que Antônio Carlos Fontoura era um dos grandes diretores brasileiros. Copacabana propõe um retrato devastador da classe média e A Rainha Diaba é um marco na exposição da tortura, numa época em que o assunto era tabu, no cinema como na imprensa, por imposição da censura. Odete é torturada pela Diaba e por seu séquito de seguidoras. Grita feito uma condenada. Hoje, me pergunto se uma cena daquelas seria possível. Nessa era de correção política, surgiriam mil vozes para protestar contra a violência das travas e das bibas, dizendo que são vítimas, não carrascas (mas no filme são). Na Garganta do Diabo, Khoury, na época aplicado discípulo de Ingmar Bergman, fez seu Noites de Circo. Odete, vestida de preto, habita a casa junto às cataratas, invadida pela guerra (do Paraguai). Em Noite Vazia, já na fase Antonioni, Khouri fez dela e de Norma Bengell as prostitutas que Mário Benvenuti e Gabriele Tinti levam para a garçonnière do primeiro. Norma faz a p… romântica, que crer que o que Gabriele e ela fazem é amor. Odete, com o penteado que realça seu aspecto leonino, e Mário são predadores. Quando entram na casa ele diz algo do tipo que ela é a centésima p… que ele leva ali. Ela retruca, áspera, que ele é seu número mil. No Dragão, Odete, mulher do coronel, tem um romance proibido com o professor, Othon Bastos. A sacada de Glauber – numa cena emblemática, a dupla recita, como diálogo, versos de uma canção de Pixinguinha. Em Câncer, Antônio Pitanga e ela fumam unzinho. Odete veste-se de roxo, carrega flores no Dragão. No avião de Paris para Berlim li trechos do Cahier que comprei no aeroporto, uma entrevista com Affonso Beato, feita durante o Janela, o festival do Recife de Kleber Mendonça Filho. O grande diretor de fotografia conta como suas pesquisas cromáticas com Glauber lhe abriram as portas do cinema mundial. Jim McBride, Pedro Almodóvar, todos quiseram filmar com ele por causa de seu trabalho com Glauber – daquelas cores de Odete? É impossível pensar em Odete Lara sem pensar em seus figurinos no cinema brasileiro. O vestido de bolinhas em O Boca de Ouro, que Nelson Pereira dos Santos adaptou de Nelson Rodrigues, parece que foi costurado no seu corpo. Era uma mulher lindas, sexy, adiante de seu tempo. Em Eu Nua, conta que buscava no sexo um lenitivo para o vazio que a consumia. Deu muito, para todos – como a revolucionária Marie Gomez de Os Profissionais, de Richard Brooks. Um dia, o vazio foi tão forte que ela tentou se matar. Salvou-a o budismo. Adquiriu serenidade, equilíbrio, mas não virou moralista de plantão. Escreveu outro livro sobre essa nova fase. Eu amava Odete Lara, mas curiosamente, agora que escrevo esse post, não consigo sentir a emoção intensa que acho que deveria estar sentindo. Talvez porque Odete, reclusa, deixara de fazer parte de minha vida, de nossas vidas, há muito tempo. Tornara-se uma lembrança distante. Ela poderia ter sido maior ainda. Recusou quando Gilberto Braga lhe ofereceu o papel de uma certa Odete Roitman, vejam só. Folheei hoje, também no aeroporto, o livro de memórias de Gerard Depardieu. Não comprei para não ficar carregando coisas demais. Compro na volta. Ele diz uma coisa que me impressionou. Não chorou pelo pai nem pela mãe, nem por François Truffaut nem pelo próprio filho, Guillaume, quando morreram. Chorou copiosamente pelo seu gato. Insensível, monstro, dirão os outros. Ele reflete. De todos terá sempre a voz, o cheiro, algum detalhe para reativar a lembrança. O gato não falava nem miava. Só o olhava e, no máximo, passava com o pelo do rabo colado nele. Mas com os outros ele eventualmente brigava, desapontava-se. O gato era livre, como ele. Ouvia-o, até se aborrecer, e partir. Eu fecho os olhos e vou ter sempre Odete Lara naquele vestido de bolinhas. Não deixa de ser um consolo.

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