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‘Odeio Essa Mulher’

Luiz Carlos Merten

10 de novembro de 2010 | 11h28

Volto aos lançamentos em DVD, a ‘Odeio Essa Mulher’, como havia prometido. O filme chama-se ‘Look Back in Anger’, no original. Produção de 1959, foi o primeiro longa de Tony Richardson e é considerado o marco inicial do free cinema, o movimento de renovação do cinema inglês, contemporâneo à nouvelle vague de Jean-Luc Godard e François Truffaut. Enquanto a nova onda surgia e se consolidava agrupada em torno à revista ‘Cahiers du Cinéma’, o free cinema incorporava o teatro inglês da época, embora Richardson e Karel Reisz já tivessem feito juntos, anos antes, o curta deflagrador do movimento, ‘Mamma Don’t Allow’, de 1955. Hoje em dia talvez tenha recuo para avaliar melhor, mas, por volta de 1960, ou poucos anos depois, Jefferson Barros e Enéas de Souza, os faróis da crítica da minha geração, em Porto Alegre, não davam muito valor aos experimentos dos ingleses, seduzidos que eram pela nouvelle vague. O cinema da nova onda, tenhamos a coragem de dizê-lo, era tudo menos social e político. O mundo podia estar caindo na França, com a divisão interna provocada pelo acirramento da situação na Argélia, mas Godard e Truffaut estavam mais voltados para os respectivos umbigos, para a vontade de reinventar o cinema francês pela via da devoção deles aos autores, muitos malditos, de Hollywood. Linguagem e cama eram as armas dos franceses. Os ingleses eram mais comprometidos com o social e, por isso mesmo, o cinema deles parecia mais ‘opaco’, com todos aqueles trabalhadores sem graça, como os personagens fodidos de ‘Tudo Começou Num Sábado (de Reisz) e ‘Ainda Resta a Esperança’ (de John Schlesinger), que não sabem direito o que querem da vida. Tony Richardson havia dirigido a peça de John Osborne no teatro e, quando ‘Look Back in Anger’ surgiu, Osborne virou o porta-voz da geração dos ‘angry men’. Havia uma revolta em curso, uma insatisfação que o teatro dos angry men colocou na pauta e que depois se cristalizou nos Beatles, na década seguinte, quando uma mudança de comportamentos se irradiou para todo o mundo, os ingleses desbundaram e instituíram a tal ‘Swinging London’. Para sua estreia no cinema, Richardson escolheu a peça de Osborne e fundou com ele a empresa Woodfall, mas quem colocou dinheiro foi Harry Saltzman, o futuro (co)produtor, com Robert Broccoli, da franquia 007. Foi Saltzman quem impôs o jovem Richard Burton e Richardson e Osborne tinham medo de que ele desequilibrasse o filme, mas no final deram o braço a torcer. Burton já havia feito filmes em Hollywood, mas não havia ‘estourado’. Ele entendia a revolta do personagem, esse músico que reclama de tudo (governo, Igreja, a rainha), mas desconta na mulher – e Mary Ure é tão boa quanto o próprio ex de Elizabeth Taylor. Detestável como é, o personagem acha que o mundo lhe deve alguma coisa, mas consegue ser terrivelmente sedutor – Burton era um cara sexy – e, desta maneira, termina seduzindo a amiga da mulher. Claire Bloom tem lucidez para alertar Mary Ure de que Porter/Burton não presta, mas não consegue resistir a seu magnetismo. Formam-se, na verdade, dois triângulos, pois existe também o amigo do casal que, no fundo, ama Mary Ure. Não revi ‘Odeio Essa Mulher’ em DVD, e nem vou ter tempo de fazer isso agora. Estou embarcando à tarde para Buenos Aires, onde começa amanhã, simultaneamente com Caracas, Cidade do México, Madri e São Paulo, o festival 4 X 1. Buenos Aires será a sede e vai receber os convidados neste primeiro ano – São Paulo será no ano que vem –, sendo o mais ilustre Apichatpong Weerasethakul (mas a programação de filmes vai rolar simultaneamente em todas as praças). De volta ao filme de Richardson, é impressionante o trabalho de câmera do fotógrafo Oswald Morris. Ele já se havia notabilizado pelo uso da cor – em ‘Moby Dick’, entre outros clássicos –, mas o que impressiona aqui é o PB, a forma como ele ‘documenta’ (existem momentos em que o filme parece documentário) a Londres feia e cinzenta dos outsiders e, paradoxalmente, dos trabalhadores, dos que tentam se ajustar e não conseguem. Estou me lembrando que alguém (Kenneth Tynan?) definiu a peça como ‘Uma Rua Chamada Pecado’ (A Streetcar Named Desire) pelo ângulo de Kowalski. A definição não poderia ser mais procedente e Burton é quase tão magnético quanto Brando. Haveria muito a acrescentar swobre o filme – sobre a alegada ‘misoginia’ de Osborne, mas agora não tenho tempo. Vou esperar que vocês vejam e, se houver interesse, voltem ao assunto.

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