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Obrigado a Bud Spencer

Luiz Carlos Merten

28 de junho de 2016 | 00h19

Todos usavam pseudônimos. Terence Hill era Mario Girotti, o diretor E.B. Clucher era Enzo Barboni e Bud Spencer era o ex-campeão italiano olímpico de natação Carlo Pedersoli. Ele havia sido extra, na pele de um tribuno romano, em Quo Vadis?, de Mervyn Leroy, em 1951, antes de participar dos jogos olímpicos de 1952 e 56. Em 1967, o esporte já ficara para trás e Pedersoli, como Bud Spencer, iniciou nova carreira no cinema. Fez o spaghetti westermn Deus Perdoa, Eu não, com direção de Giuseppe Colizzi, e no ano seguinte, com o mesmo diretor, Os Quatro da Ave Maria, também conhecido como Assim Começou Trinity. Durante três ou quatro anos consolidara-se na Itália o western macarrônico, o spaghetti western. Um diretor deu ao gênero sua carta de nobreza – Sergio Leone, em parceria com o compositor Ennio Morricone e o astro Clint Eastwood. Criaram westerns operísticos. Fizeram história. Mas o gênero esgotou-se, e é aí que surge Trinity. Em 1970, o trio Hill/Spencer/Clucher cria um tipo de western cômico, com um herói tão insolente quanto indolente. Eles me Chamam Trinity estabeleceu o paradigma. O filme abre-se com o herói numa padiola, puxado por seu cavalo. Trinity pode ser o gatilho mais veloz do Velho Oeste, mas é preguiçoso como Macunaíma. Isso não o impede de salvar um gigante mexicano a quem, chama singelamente, de Bambino. Era Bud Spencer. Passaram a formar uma dupla, que prosseguiu através de Trinity ainda É Meu Nome e Dá-lhe Duro, Trinity. A saga também se esgotou, mas mantendo a dupla foram, Hill e Spencer, Supertiras em Miami e Dois Loucos com Sorte, também conhecido como Dois Loucos no Oeste. Trinity voltou, com direção de Hill, em 1994. Eram adorados, os dois, pelo público de todo o mundo. Lembro-me de haver assistido a Dales Más Duro, Trinity numa sala lotada de Montevidéu. Em 2003. longe do amigo (e parceiro), Spencer fez o título possivelmente mais nobre de sua carreira – Cantando Dietro i Paraventi, de Ermanno Olmi, livremente adaptado da Viúva Ching, Pirata, de Jorge Luís Borges. E ontem, em Roma, aos 86 anos, Bud Spencer morreu. O filho disse que papá partiu docemente, cercado pelo amor da família. E acrescentou, esse filho, que sua última palavra (de Bud/Carlo) foi Grazie, Obrigado. Quero crer que, como Violeta Parra, ele estivesse agradecendo à vida, por lhe haver dado tanto. Viajei nos filmes de Bud Spencer e Terence Hill, nas canções de Violeta cantadas por Isabel Parra e Mercedes Sosa. Cheguei a Um Amor Quase Perfeito, Le Fate Ignoranti, do ítalo-turco Ferzan Ozpetek. O marido de Margarita Buy morre, ela descobre que ele estava tendo um affair – com um homem. Ela própria vira amante de Steffano Accorsi. Ambos ganharam o Nastro d’Argento, o Globo de Ouro italiano. Margarita integra-se a uma comunidade LGBT. Uma das travas vai fazer seu exame ‘ginecológico’, com um urologista, e descobre estar com câncer de próstata. No final, uma miséria imensa, todo mundo fodido, cantam Gracias a la Vida. É amar ou detestar. Eu amei, como amei outros três filmes de Ozpetek, os que conheço – O Banho Turco, A Janela da Frente e O Primeiro Que Disse. Na verdade, a morte de Bud Spencer me levou numa viagem pelo cinema italiano, do mais popular ao erudito. Ele agradeceu, antes de morrer – a Deus, à vida. Eu tenho de lhe agradecer agora.

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