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Obituários

Luiz Carlos Merten

14 de outubro de 2013 | 09h09

Em Paris e Londres – nos aeroportos -, comprei revistas de cinema (nas línguas francesa e inglesa). Não encontrei a Cahiers de outubro, cuja capa imagino que seja A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2. Sempre me pergunto se surgirão outros capítulos. Depois de um idílio inicial – afinal, Adèle Exachorpoulos e ela fizeram história ao dividir a Palma tríplice com o diretor Abdellatif Kechiche -, Léa Seydoux uniu sua voz ao coro dos descontentes e lançou sérias acusações ao cineasta. Positif colocou-a sozinha na capa deste mês. Os capítulos 3 e 4 só sairão com outro elenco e talvez outro diretor. Kechiche dificilmente vai engolir as críticas de sua ‘estrela’. Há uma mitificação do processo de criação. Antigamente, ninguém se interessava pelas atribulações dos atores e diretores. Afinal, o problema era deles, a sua função. Nós, o público, queríamos a peça ou o filme prontos. Hoje em dia, certos ‘processos’ são mais importantes que as obras concluídas. Ia citar o… no Brasil. Deixa pra lá. Existem horas em que me pergunto se gostaria de saber tanto sobre os bastidores de A Vida de Adèle como de qualquer outro filme, e até entendo os colegas que dispensam entrevistas e visitas a sets, coisas que adoro fazer e, na maioria das vezes, me produzem imenso prazer. Kechiche, todo mundo diz, é autoritário, abusa dos atores e técnicos, cujos direitos (legais/sindicais) ignora. É do jeito dele, ou rua. Uma simples cena de Léa e Adèle num parque, trocando uma carícia, foi rodada ao longo de uma semana inteira. Neste sentido, Kechiche é um pouco o Terrence Malick francês, com suas rodagens erráticas, em busca de algo que está na cabeça do diretor (e às vezes nem ele sabe o que é). Numa das revistas que comprei, Total Film, o número é dedicado a The Fantasy Issiue, há uma entrevista com Galadriel, perdão, Cate Blanchett. Ela conta como foi fazer Blue Jasmine com Woody Allen. Deus queira que seja indicada para o Oscar e até ganhe o prêmio. Allen escreve roteiros muito precisos. Faz uma, duas tomadas e vamos para outra. Jasmine, a personagens, tem várias crises, quando desaba emocionalmente. Uma mulher al borde (de um ataque de nervos). Cate toda hora queria refazer as cenas, testando ‘mais’ e ‘menos’. Ao cabo de algumas repetições, em que Woody invariavelmente preferia o menos, ela sentiu que seu autor estava ficando incomodado. Neste sentido, Allen, que é bem autoral (não?), é também industrial – respeito aos prazos e orçamentos. Numa semana, ele gostaria de fazer o filme todo, não uma simples cena. Tergiverso. O plot do post é que Positif tem uma seção que acho muito interessante. O mês passado a limpo, dia a dia. Julho e agosto no cinema, por Yann Tobin. Foi ali que descobri que morreram Karen Black, Julie Harris e Denys de la Patellière. O último, nem sabia que estava vivo, com, 92 anos. Denys de la Patellière era um representante do cinema de qualidade que o crítico François Truffaut abominava. Dirigiu vários filmes com Jean Gabin, e era um dos realizadores preferidos do patriarca dos atores franceses. Encerrada sua carreira no cinema, prosseguiu na TV, fazendo episódios da série Maigret (Georges Simenon, sim) com Bruno Cremer. Em 1961, em plena nouvelle vague, ele dirigiu o maior sucesso do cinema francês da época, arrebentando na bilheteria com Um Taxi pour Tobrouk, com um ícone da nova onda, Jean-Paul Belmondo. Bye-bye, Denys. Ele morreu em 21 de julho. Karen Black, na sua grande fase, foi a estrábica mais charmosa do cinema. Trabalhou com Francis Ford Coppola, Dennis Hopper e Bob Rafelson na eclosão do novo cinema americano, e foi companheira de Jack Nicholson, que a dirigiu em O Amanhã Chega Cedo Demais/ Drive He Said, e eu digitei ‘cego’, o que faz sentido, o ato falho, porque o filme era bem ruinzinho, até onde me lembro. Karen Black fez também O Grande Gatsby, a versão de Jack Clayton, e o último Hitchcock,  Trama Macabra, que tem seu humor, mas não é exatamente uma obra-prima do mestre do suspense. Karen morreu em 8 de agosto, aos 76 (ou 74) anos. Duas semanas mais tarde, no dia 24, foi a vez de Julie Harris. Grande dama do teatro, morreu aos 87 anos. No cinema, fez história como a jovem companheira de James Dean em Vidas Amargas, de Elia Kazan, em 1955. mas seu papel mítico, para mim, foi como a mulher de Brian Keith em Os Pecados de Todos Nós, meu maior John Huston, de 1967, em que ela tem aquele diálogo genial com Zorro David, contando como arrancou os bicos dos seios com a tesoura de cortar grama. No dia 8, eu já estava em Gramado, ou indo para Gramado, o que pode explicar como e por que não soube da morte de Karen Black. Mas a de Julie Harris… Ela fez também aquele terror de Robert Wise, The Haunting, sobre o tema da casa assombrada. No Brasil, chamou-se Desafio ao Além, e Julie dividia a cena com Claire Bloom, lembram-se? Houve um remake recente, era horrível.

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