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O Verão dentro é mais forte que Sobre Viagens e Amores

Luiz Carlos Merten

06 Maio 2017 | 10h40

Tentei falar com o diretor Gabriele Muccino na Itália, mas deu sei lá que problema e não consegui concluir a ligação. Muccino é o diretor de Sobre Viagens e Amores, que estreou na quinta, 4. O filme me pareceu muito bonito, Chama-se, no original, L’Estate Addosso, O Verão Dentro (de Mim). Em Inglês é Summertime, Tempo de Verão. É curioso que, em Berlim, havias, fora de concurso, outro filme italiano – Call Me by My Name, de Lucca Guadagnino. Verão na Toscana, um garoto descobre o sexo com um homem mais velho. No Muccino, o garoto é straight, obcecado pela morte. Parte numa viagem de descoberta para a América, só não sabe que vai ter de compartilhar tudo com a garota mais chata da escola, ou assim, ele pensa. Hospedam-se na casa de um par gay. Contam-se intimidades. O clima fica estranho, desejos velados. O garoto, Marco, passa a desejar a chata, que não é chata. O filme é sobre o amor, o desejo – hetero, homo. Não, isso é a história. O filme é sobre o tempo, esse verão inesquecível e malresolvido que Marco vai levar para a vida, dentro dele. Belo e triste. Por que os bons filmes sobre adolescentes são tristes? Gabriele Muccino ficou famoso em todo o mundo por aquele filme alto-astral de Will Smith em que ele sofre para manter o filho e aí o letreiro final informa que o cara virou bilionário – À Procura da Felicidade. Se você procura informações de Muccino nas redes da Itália encontra menos sobre os filmes que a violência doméstica em que ele se envolve. Machista, Muccino batia na mulher e o irmão veio a público desculpar-se por ter deposto a favor dele, pressionado pela família, quando rebentou o tímpano de Elena Majoni e ela foi parar no hospital. Como um cara desses faz um filme tão delicado, com tanta compreensão do gay e da confusão de sentimentos do adolescente? Lucca Guadagnino, ele, é gay assumido. Vive e trabalha num palazzo de Crema, a menos de uma hora de Milão. Tive uma one a one com ele em Berlim, que me contou que o filme se baseia num livro e começou a nascer há dez anos. Os produtores o contrataram para ser a parte italiana da produção e o diretor seria outro. James Ivory foi uma espécie de consultor, e padrinho. Lucca nem sabe dizer como terminou onboard, como diretor. O garoto é um querubim, cabelinho encaracolado, mas tem cara de safado – Timothée Chalamet. O cara mais velho é Armie Hammer, que fez o filme contra a indicação do seu agente. C’mon. Falaram com naturalidade da cena de sexo. Call Me by My Name já chegou à Berlinale aureolado do sucesso que obteve em Sundance. Como tem participação brasileira, não duvido que seja do Rodrigo Teixeira, mas teria de confirmar com a Paula Ferraz. Só espero que o filme de Lucca Guadagnino, que tanto sucesso também fez em Berlim, chegue aos cinemas, como esse Sobre Viagens e Amores. Ambos possuem similaridades e será interessante para o público confrontar o olhar do machista e do gay, nesse momento de ’empoderamento’, em que tanto se fala do olhar feminino.