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O Venom ‘de arte’ e o trem da vida de Paul Vecchiali

Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2018 | 09h00

Tenho visto coisas interessantes nas cabines da Mostra. O curta Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, de Eugene Green, foi uma bela surpresa e por falar em bela, ou belo, Carloto Cotta, no duplo papel do poeta e de seu heterônomo, Álvaro de Campos, dá um show (de talento, inclusive). Você o conhece – o bonitão de Tabu, de Miguel Gomes. Fernando é contratado por um empresário que está importando um novo produto da América, a Coca-Louca. Álvaro adverte-o que, como todas as suas aventuras econômicas, essa está destinada ao fracasso. Poesia e marketing não combinam e, ao fracassar no seu intento de vender a Coca Louca, Fernando salva Portugal da ditadura do mercado – uma joia. Não pude deixar de pensar na versão blockbuster do filme de Eugène Green, Venom. Tom Hardy conversando com o coiso dentro dele. (Leio que Venom e a nova versão de Nasce Uma Estrela, que estreia quinta no Brasil, arrebentaram na bilheteria nos EUA, transformando esse mês de outubro no melhor de muitos anos para a indústria.) Na mesma sessão da Mostra, vi ontem o novo Paul Vecchiali, Trains de Vie, Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique. Um filme em quadros, ou capítulos. Uma mulher num trem. O mesmo set, o mesmo ângulo da câmera. Angélique conversa com seus parceiros de viagem, que se sucedem, ou repetem, ao lado dela. A vida, o amor, o sexo – e a morte. Angélique não consegue conter seus impulsos amorosos/sexuais, e isso termina por infligir grande dor ao marido. O texto não passaria num concurso de roteiros. O falecido Syd Field levantaria indignado da cova – cadê a curva? Mas, então, por que o filme é tão bom? A velha pergunta – o que é o cinema? E, sim, a curva está lá, mas não tão óbvia. Eugène Green e Paul Vecchiali me encantaram.