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O terceiro Sergio

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2013 | 13h25

GRAMADO – Participei há pouco da coletiva de Flores Raras. Quer dizer,  cheguei no fim, ouvi as respostas de Bruno Barreto para duas ou três perguntas, e uma delas foi particularmente interessante, porque a produtora Paula Barreto interveio para uma revelação curiosa, senão surpreendente. Nesta era de ‘normalização’ das relações gays, as empresas ainda hesitam em investir dinheiro num filme como Flores Raras, ou no próximo de Bruno, Crô, sobre o personagem de Marcelo Serrado naquela novela com a Lìlia Cabral (o ‘Pereirão’). A homossexualidade das personagens afugentaram as empresas, que não queriam ligar sua marca à abordagem do assunto, e eu me pergunto se essas associações que patrulham em prol da correção política estão sabendo disso. A produtora Lucy Barreto acrescentou que a discriminação não diz respeito somente a gays, mas inclui os negros. Filmes de negros, marginais, viados, é duro conseguir dinheiro e, no caso de Flores Raras, Bruno confessou que teve de fazer empréstimo e colocar dinheiro do próprio bolso – dele, do pai, da mãe, da irmã, da família Barreto, enfim – para finalizar a produção que abriu ontem Gramado. O que tudo isso expõe, senão a hipocrisia social? Não resisti a acrescentar esse post, embora, originalmente, tivesse vindo à sala de imprensa para postar sobre spaghetti western, especificamente, sobre o terceiro Sergio. Você sabe o que a pessoa pensa sobre o gênero, o faroeste à italiana, simplesmente por isso – para quem não gosta, o spaghetti se reduz a Sergio Leone, a exceção que confirma a regra. Quem tem um mínimo de tolerância, absorve o outro Sergio, o Corbucci, mas para chegar ao terceiro é preciso um longo caminho. Minha ex, Doris Bittencourt, voltou de Paris no começo da semana. Trouxe-me a  Cahiers de julho/agosto, sobre o amor pelos atores (a matéria de capa). Há um glossário de atores, de cenas, entrevistas com Michael Shannon e com diretores como Martin Scorsese e Abel Ferrara, todos discutindo a arte da representação. O modelo de Shannon é James Stewart e ele faz análises pertinentes sobre a forma como o ator permanecia o mesmo adaptando-se ao universo de autores tão diversos quanto Alfred Hitchcock, Anthony Mann e John Ford. Li só essa parte, lancei uma vista d’olhos sobre as declarações/afirmações de Ferrara e Scorsese, e eu sempre me sinto mais próximo do primeiro, seja lá o que isso signifique aos olhos dos outros. O único texto que li, e com atenção, foi o dedicado a Sergio Sollima. O terceiro Sergio! A revista se utiliza de um lançamento em DVD para resgatar o (para mim) grande diretor. Já falei aqui no blog sobre Faccia a Faccia, Quando os Brutos se Defrontam (ou Enfrentam), como um de meus spaghetti favoritos. Escrevi outro dia que gosto quando vejo meus talentos ‘secretos’ enfim reconhecidos. Cahiers, embora não seja uma revista pela qual me paute, tem prestígio suficiente para pautar os outros – alguns outros, pelo menos -, e acho bacana que a revista reconheça, enfim, o mérito de Sollima, não só no western, mas no thriller, também. Cahiers, no fundo,  pode não ter os mesmos gostos de eu, mas tem uma postura – atitude – semelhante. A revista não discrimina e, neste número, tece altos elogios a uma animação, Universidade Monstros. Gostei demais do filme e até hoje tento entender como e por quê Universidade não foi muito bem nos cinemas brasileiros, enquanto Meu Malvado Favorito 2, que não é tão bom, estourou e virou o filme das férias de inverno. De volta a Sergio Sollima, ele fez de Tomás Milian o seu alter ego numa série de filmes, Time for Killing, Tempo de Matar,  Faccia a Faccia e Cori, Uomo Cuori, que amo. Milian, Lee Van Cleef, Gian-Maria Volontè, Sollima fez filmes emblemáticos com os maiores do gênero – Faccia a Faccia foi uma das referências de Quentin Tarantino para Django Acorrentado – e depois dirigiu Charles Bronson e Telly Savalas no policial Cidade Violenta, quando o cara de pedra ainda não estava consumido pelo desejo de matar. Faz frio em Gramado, chove lá fora e eu viajo nas minhas lembranças de spaghetti westerns e thrillers. A cena do ‘corre, homem, corre’ é viva na minha lembrança. E agora, sim, vou misturar alhos com bugalhos. Nesse crime horroroso, do garoto a quem se atribui a chacina da própria família, li ou ouvi em algum lugar que no quarto dele havia um pôster do jogo Assassin’s Creed, como se a violência do game fosse nociva e houvesse inspirado o guri. Tudo bem, já sou coroa e talvez menos sugestionável, mas li toda a série sobre Ezio Auditori e, de cara, pensei que o primeiro livro, Assassin’s Creed Renascença, o melhor – apesar de inconclusivo -, daria um grande filmes de aventuras no estilo daqueles de Riccardo Freda que moldaram meu imaginário nos anos 1960 – As Sete Espadas do Vingador e O Magnífico Aventureiro, ambos com Brett Halsey (e o segundo com a rohmeriana Françoise Fabian, de Minha Noite com Ela, o ‘meu’ Eric). A banalização do mal é um tema complexo e vale abordá-lo através do cinema, de filmes como Hannah Arendt, de Margarethe Von Trotta, com a poderosa Barbara Sukowa, ou da cinebiografia de Reinhard Heydrich em O Capanga de Hitler, de Douglas Sirk (e também do livro sobre ele, O Carrasco de Hitler, que acaba de ser editado no Brasil). Como um sujeito que teve uma infância estável, numa família requintada – o pai era compositor -, virou as costas para a família e se transformou no encarregado de Hitler para a solução final do problema judeu? Ando muito perturbado por todos esses livros e filmes, que refletem o mundo distorcido em que vivemos.

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