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O tempo que passa

Luiz Carlos Merten

25 de março de 2020 | 18h56

Tenho feito entrevistas bem legais, e que gostaria de publicar logo, mas com o circuito interrompido não sei quando, ou se, isso vai ocorrer. Com a perspectiva de um mercado polarizado, no segundo semestre, pela briga de foice entre os blockbusters que Hollywood não está conseguindo lançar, já manifestei aqui minha preocupação pelos filmes pequenos e pelos nacionais, que são sempre os mais prejudicados, até porque Paulo Gustavo é só um. Ouço até que alguns filmes importantes poderão nem mais entrar em salas, indo diretamente para o streaming. Entrevistei Affonso Uchôa, Albert Serra, Bertrand Bonello. Os dois últimos, por telefone, da Espanha e da França, dois países duramente atingidos e com políticas públicas que reforçam o isolamento social (criticado pelo coiso no pronunciamento de terça-feira à noite). Serra, que já deveria estar iniciando novo filme, contou que tem aproveitado a parada para refletir, escrever e isso, com, certeza, se refletirá nos próximos filmes. Bonello tem aproveitado para ver filmes em casa, ou melhor, rever. Terminamos falando bastante sobre um F.W. Murnau de 1927, Aurora, que ele, eu e a totalidade da crítica consideramos um dos maiores filmes do cinema. Não foram somente entrevistas. Com o Serra, a quem contei que fui jurado da Caméra d’Or – e que me empenhei, sem sucesso, para que ele ganhasse com Honor de Cavalleria -, terminou sendo uma charla quase de amigos. Tive um amigo que sempre dizia que eu deveria reunir em livro as entrevistas que fiz com Jack Nicholson, Steven Spielberg, Woody Allen, Angelina Jolie, etc, para não falar dos brasileiros. Nunca pensei nisso seriamente, nem agora. Como jornalista, o que me atrai é justamente o efêmero, o jornal de hoje que amanhã enrola o peixe na feira (a imagem tornou-se inadequada;
seria considerado anti-higiênico). Mas quando reli, no outro dia, abrindo ao azar, algumas das críticas reunidas no livro Um Sonho de Cinema, editado pela Prefeitura de Porto Alegre, viajei. Gostei de reencontrar o sonhador que nunca deix(ar)ei de ser.

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