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O teatro é uma coisa maravilhosa, o Albee de Eduardo Tolentino

Luiz Carlos Merten

09 de fevereiro de 2020 | 10h28

Acho que vou substituir a rubrica ‘o crítico de cinema vai ao teatro’ por esse título aí em cima. Fui ver no sábado uma joia do teatro. Desde que Leandro Nunes, que cobre o setor, no 2, me soprou que havia um Edward Albee do Eduardo Tolentino na Aliança Francesa, vinha tentando encaixar De Todas as Maneiras que Há de Amar na minha agenda, mas os fins de semana em Porto Alegre, no Rio e o próximo na Europa, não me deixaram alternativa. Era ontem ou nunca – hoje tem Oscar. Fui, e amei. Encontrei Tuna Dwek, Sérgio Rovei, a Anete – espectadora número 1 da Mostra, mas também assídua teatreira. De Todas as Maneiras não está sendo montado no Teatro da Aliança Francesa, mas em outro espaço da casa, o auditório do segundo andar – sobe-se pelo elevador -, convertido em espaço cênico. Tolentino improvisou uma arena. Minimalismo total – colocou no centro uma mesa, duas cadeiras, um lustre. Esse é todo o cenário e os atores – Clara Carvalho e Brian Penido Ross – movimentam-se no centro e em torno de uma das fatias em que se divide o público. Luz, sombra e palavra. O texto de Albee chama-se Counting the Ways no original e é de 1976, escrito logo depois de Listening, de 1975. No site da Edward Albee Society, o próprio autor explica que os dois nasceram como díptico para ele, que gostaria que fossem encenados juntos, compondo uma ‘nicely varied evening’. Mas Listening foi montado em Nova York num programa de peças curtas de Beckett, e ganhou outra vida, outro rumo. Counting, por sua vez, foi montado na Filadélfia em 1977 e também fez carreira exitosa. Albee foi o homem que dissecou o casamento de George e Martha em Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, vertido para o cinema por Mike Nichols em 1966 e que valeu a Elizabeth Taylor seu segundo Oscar. De Todas as Maneiras volta ao tema do casal. No palco, ‘Ela’ e ‘Ele’, Clara e Brian. De cara, ela levanta os olhos do livro que está lendo e pergunta – “Você me ama?” Seguem-se, durante 55 minutos, esquetes curtíssimos que vão ilustrando as múltiplas formas de amar, mesmo que o o tema embutido, na verdade, talvez seja o oposto – uma dúvida. Bem me quer, mal me quer. E quando se instala, o desamor, chegam as camas separadas? Ela diz uma coisa linda – “O amor não acaba, a gente passa por ele” (Ou ele passa pela gente). Havia pensado, sim, em Beckett, mas principalmente no Woody Allen do início da carreira, que também escrevia em esquetes, e com o mesmo brilho e velocidade do humor. Mais do que qualquer outro espetáculo recente do Tolentino – dá para fazer um duplo com Brincando com Fogo, de Strindberg, também sobre amor, e relacionamentos -, baseia-se no timing. Numa cena, e faz parte do texto, os atores interrompem a ação e se apresentam. Clara e Brian foram casados (na vida), ele conta que, apesar de uma extensa carreira no teatro e com trabalhos na TV, nunca fez cinema. Não, Brian – estás fazendo, com o Tolentino. O recurso das luzes se apagando, com mudança de ação, me lembrou muito a íris, do cinema mudo, à qual François Truffaut, um romântico que desconfiava do romantismo, permaneceu sempre fiel. Não adianta – meu teatro alimenta-se do cinema. Conversei com o Tolentino, e ele me disse que enviou um e-mail, que não recebi, esclarecendo dúvidas no post sobre Brincando com Fogo. O que acontece com alguém que diz que ama começa a flertar com outros, ou outras? Tolentino disse que a versão de Ingmar Bergman encontra-se no YouTube, e sim Gabriel Villela montou Strindberg, O Sonho, em Salvador, no final dos anos 1990. Dei uma ‘gugada’ e encontrei fotos – Gabriel, Cláudio Fontana, Ivan Andrade, que dirige Dos Prazeres, no Sesc Vila Mariana -, sob a rubrica Teatro da Delicadeza.

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