As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O tamanho e o documento

Luiz Carlos Merten

25 Março 2017 | 10h54

O assunto anda fervendo. Começou no Globo, que publicou uma capa no Segundo Caderno dando conta do recorde de lançamentos de filmes brasileiros em 2016. Cento e tantos filmes – 143! -, que venderam 30 milhões de ingressos, mas dos quais apenas 12 fizeram mais de 500 mil espectadores (cada). A maioria entrou para o sacrifício. Teve filme que fez mil (mil!) espectadores, outros nem isso. O jornal pretendia, certamente, fazer uma radiografia do estado das coisas, mostrando como funciona o mercado no País. Bruno Wainer, da Downtown, a empresa que, com a Paris, tem sido responsável pelos maiores êxitos do cinema brasileiro recente, publicou um texto, também no Globo, defendendo sua estratégia. Basicamente, a Downtown identifica os ‘produtos’ com potencial de mercado e participa de todo o processo criativo, com vistas a fazer dos seus filmes verdadeiros eventos. Não é coisa nova. Em Hollywood, no começo dos anos 1970, filmes – Love Story, O Poderoso Chefão – viraram operações calculadas de marketing de produtores como Robert Evans e Scott Rudin. Houve réplica de Cacá Diegues, alertando sobre o monopólio da Downtown e o risco que representa uma empresa ditar as regras e padronizar a produção. O assunto é complexo e, como jornalista eu entendo o partido do produtor e do distribuidor, mas também como jornalista, e crítico, sinto-me mais próximo da inquietação de Cacá. Sou pela diversidade e não vejo desdouro em que filmes de que gosto muito façam 5 mil espectadores. Se 2 Filhos de Francisco, com sua vocação de blockbuster, fizesse esse número, seria um desastre, mas um filme pequeno, autoral, lançado numa sala, num horário ou dois… É lucro. Cada filme tem seu tamanho, e é isso que devemos respeitar. Paulo Gustavo deve estar batendo nos, se não passou dos 10 milhões de espectadores com Minha Mãe É Uma Peça 2. Imagino que a expertise do Bruno, e da Downtown/Paris, contem, mas o Paulo virou esse fenômeno. No teatro, TV paga e cinema, o cara tem o público na mão dele. O que tem estado em discussão no cinema brasileiro é a chamada terceira via. Temos, de um lado, os blockbusters e, do outro, os filmes miúras. Faltam os filmes do meio, ou esses, mal lançados – sem verba de lançamento os filmes morrem na praia -, passam despercebidos. Começou na quinta a mostra Tiradentes em São Paulo. A vitrine da produção independente, autoral, sem orçamento. E eu vou invocar valores de mercado..? O que está em pauta é outra coisa. Falando nisso, quantos espectadores viram Jonas e o Circo sem Lona? Estou conseguindo emplacar a matéria no Caderno 2 de hoje, com a de Os Cowboys, outro filme (francês) belíssimo. Entrevistei a diretora Paula Gomes pelo telefone (de Salvador) e ela me disse que as pessoas a caçam no Face para dar contar de quanto (e como) o filme mexeu com elas. Isso não tem preço. Jonas já foi vendido até para a Coreia do Sul. Talvez pela forma, o conteúdo – um documentário com perfume de ficção – não seja o melhor exemplo. Travessia, vai. É um bom filme do João Gabriel, um drama humano com pegada criminal, com Chico Diaz e Caio Castro, o galã do momento (na Globo), de bundinha de fora numa cena caliente de sexo. Travessia poderia ser o típico filme do meio, com números bem decentes – como La Vingança, que também tem suas qualidades. Já pensaram num mundo padronizado de filmes mega? Seria um porre. Nem Hollywood consegue emplacar dez megassucessos em dez, e isso com o mercado mundial formatado para ela. Aliás, historicamente, na era de ouro, quando reinavam os estúdios com toda aquela produção (massificada?), os autores já faziam a diferença. Até o Oscar – o host chegou a a ironizar. ‘Estamos celebrando (com prêmios) os filmes que ninguém vê…’ Quero mais que Paulo Gustavo seja exceção, como Jonas também é. E viva o filme médio, o pequeno. No limite (quase) todos dependem de patrocínio, e isso vale discutir, mas em outro post.