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O sonho de Éder, O Arco do Medo e Hotel Tennessee

Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2018 | 09h04

Estou aqui em choque. Tudo bem que eu vivo no meu mundo paralelo, mas ontem, emendando cinema com teatro e jantar, não fiquei sabendo do incêndio que consumiu o Museu Nacional, no Rio. Via um monte de gente com celular, ao redor, mas a maioria fazia selfies ou consultava seus e-mails. Cultura! O ‘ministro’ deu uma de suas declarações de que está devastado e o Drácula ressurgiu de seu sono eterno para lamentar a perda irreparável, como se ambos não tivessem nada a ver com isso e fossem vítimas da negligência do povo brasileiro. É de cortar os pulsos. Fui ver, no Cinesesc, o programa de curtas brasileiros premiados no festival de Zita Carvalhosa. Já conhecia O Órfão, que esteve em Cannes, descobri O Sonho de Éder e O Arco do Medo. O garoto índio que estuda administração e reflete sobre a destruição de sua cultura pelos avanços da evangelização e do agronegócio – que é pop, segundo a Globo. Boi, bala, Bíblia e bancos – os 4 Bs da Câmara que compõem o grande obstáculo a qualquer tentativa de criar uma maioria progressista. O Sonho de Éder, Ex-Pagé, Martírio… Com diferentes graus de realização estética – o curta é o melhor de todos -, acho que esses filmes dão um testemunho importante, que é preciso levar em consideração, e muito, nesse momento. Gostei demais de O Arco do Medo e da performance de Juan Rodrigues, que me deixou siderado. Aquele corpo negro pelo qual transitam os gêneros – o superar-se, o transcender-se, o liberar-se. Acho que estamos em pleno lugar da fala, num momento de afirmação, mas poucos filmes, como o de Juan Rodrigues, parecem ir ao ponto, com tamanha precisão e eficiência. Ainda estava sob o efeito do programa de curtas quando corri para o casarão da Rua Guaianazes, para assistir a Hotel Tennessee. De início, pensei que tinha errado de hotel e ido parar no de Stanley Kubrick, O Iluminado. Muita gente, um certo caos na organização do check-in, mas, aos poucos, o charme começou a operar e eu fui me rendendo ao conceito. Reencontrar, naquele hotel, em New Orleans, as personagens emblemáticas de Tennessee Williams e o próprio dramaturgo, que rabisca anotações e assiste, compungido, ao sofrimento de suas criaturas. Willie Starr e a lembrança da irmã, Alva; Blanche DuBois e Maggie, a gata de teto em zinco quente. Blanche que seduz o bellboy, de quem rouba o beijo. Maggie que, com sua determinação feminina, não dá trégua ao marido, decidida a fazer com que Rick funcione de novo naquela cama. Ecos de Elizabeth Taylor e Paul Newman… Espero ainda ver um dia Gabriel Villela montar Tennessee Williams. Em sucessivas conversas com o grande diretor, ouvi-o dizer que não dá conta do psicologismo do dramaturgo, mas eu creio que dá e seria muito interessante acrescentar o freudianismo de Tennessee a essa síntese de barroco mineiro e Brecht que tem feito, há décadas, a glória de Gabriel. De minha parte teria substituído personagens de Hotel Tennessee. Preferia ter visto Alexandra del Lago e Violet Venable, disposta a manter o culto ao filho poeta, Sebastian, mesmo que isso signifique destruir a memória da sobrinha, Catherine. Os hóspedes dividem-se em grupos segundo as cores das chaves dos quartos – vermelho, verde… Nem todo o mundo vê o mesmo espetáculo. Em outros quartos desenrolam-se outras histórias. Mas minha perna voltou a doer – vou ao médico hoje à tarde -, tinha de subir e descer escadas, não sei se gostaria de repetir a experiência, mesmo que, embora irregular, tenha tido suas compensações. Agosto, mês de cachorro louco, já passou. Estamos em setembro. Daqui a pouco, dia 12, é meu aniversário. 73, e recomeçando. Daqui a pouco tenho a junket de O Paciente, depois à noite O Banquete. E esta semana teremos o Mirada, em Santos. Como dar conta de tanta coisa? Otimizando o tempo, priorizando escolhas. Na vida é sempre assim. Com as escolhas, ganha-se, perde-se. O ganho traz o risco, o novo. Botei na cabeça. Preciso viajar, neste mês.