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O sentimento do irremediável em Eles não Usam Black-Tie

Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2018 | 10h01

Há algo de trágico, irremediável na releitura que o diretor e adaptador Dan Rosseto faz da peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não Usam Black-Tie. O texto fez história nos anos 1950, ao colocar o povo no palco. Inspirou um filme emblemático de Leon Hirszman, feito num momento de ebulição sócio/política, em plena ditadura, durante as greves do ABC que viram nascer a liderança de Lula, o metalúrgico. Fiz até um destaque recente do filme na TV. Em plena reforma trabalhista e da previdência, a apaixonada defesa que o filme faz do sindicalismo está na contramão da tal modernidade. Otávio e Romana catam o feijão no desfecho, jogam fora os grãos podres, o próprio filho, Tião, que furou a greve. Na releitura de Dan Rosseto, Tião pode não ser o herói da classe operária, mas certamente não é um vilão. A montagem tenta dar conta dos impasses do momento atual. Movimento sindical enfraquecido, as reivindicações individuais que se sobrepõem a projetos coletivos. Cada um por si e Deus contra todos. Maria está grávida, Tião quer casar, teme perder o emprego. Ao furar a greve, colhe a rejeição do pai, que o expulsa de casa, a rejeição da mãe, da própria Maria. Lembrei-me de Martin Ritt e sua obra-prima de 1969, The Molly Maguires, Ver-Te-Ei no Inferno. Samantha Eggar odeia sua vida na vila de mineradores. Intimamente, ela se diz que faria qualquer coisa para sair dali, mas quando se configura a traição de Richard Harris, o agente duplo, sua solidaridade é de classe, por Sean Connery. Não, ela não faria tudo, não se ligaria ao traidor. Maria também fica com os seus. O que Tião fez, pensando nela, nele, não tem perdão. Cava um fosso entre eles – nunca mais. Toquei-me muito com essa irreveresibilidade das coisas, chorei – de verdade. Certtas escolhas não permitem recuo. Devo ser um tolo. Sou o que sou. Como montador, Dan Rosseto cria um clima de festa – a expectativa do casamento, o noivado. Muita música – sambão, Roberto Carlos. E aí o clima de medo vai devorando a festa. As pedras na mão, a greve. O desenlace é trágico. Gostei muito, muito de ter visto Eles não Usam Black-Tie. Nunca havia visto o texto de Guarnieri no palco, só no cinema. Não consigo avaliar quanto Rosseto mudou, mas sua adaptação dá conta do que ocorre no País, no mundo. E me desculpem o que pode parecer viadagem, talvez seja. Kiko Pissolato e Paloma Bernardi são deuses no palco. Puta mulhere bonita, meu Deus. Puta cara macho… Jovens e belos. O amor desperdiçado. Como se recria uma personagem imortalizada por Fernanda Montenegro? Teca Pereira dá a resposta com sua Romanas. Black-Tie vai até dia 16, no final de semana que vem. O Teatro Aliança Francesa estava quase cheio no feriado. Vejam que ainda dá tempo. Vai valer a pena…