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O retorno de Casanova

Luiz Carlos Merten

30 de maio de 2014 | 11h17

FLORENÇA – Temos acompanhado, Dib Carneiro e eu, pela internet, as andanças de Tuna Dwek por Paris. Um pouco seguimos seus passos, vendo a exposição de Van Gogh pelo olhar de Antonin Artaud no Musée d’Orsay, mas perdemos o Macbeth de Ariane Mnouchkine, na Cartoucherie. Tuna adoraria, tenho certeza, estar ontem aqui com a gente, em Florença, para a estreia de IL Ritorno di Casanova. Francesca dela Monica, que faz o incrível trabalho com a voz dos atores de meu amigo Gabriel Villela, foi nossa cicerone. O texto é de Arthur Schnitzler – o velho Casanova, em busca do tempo perdido, paga para ter uma noite de amor com a mulher que mais desejou (na juventude). Schnitzler não é mole. não. Amor e morte, desejo. Max Ophuls, Stanley Kubrick, Roger Vadim, todos beberam na sua fonte. O texto é deslumbrante e Francesca já nos preparara – disse que íamos ver o maior ator da Itália. Não, não é Toni Servillo. Já havia ouvido falar de Sandro Lombardi e também do diretor Federico Tiezzi. Num certo sentido, é o espetáculo mais parado que já vi. Como num filme de Joseph L. Mankiewicz, a dinâmica dos diálogos se faz no embate das modulações da voz humanas (a voz de Sandro) e do uso que Tiezzi faz da trilha ao vivo (dois percussionistas e uma violoncelista). Casanova mata a própria juventude. Antes do espetáculo, conversei com o diretor, que montou Um Amor de Swann no mesmo local – o Cortile do Museu Nacional de Bargello. Queria olhar o cenário, o pátio interno do museu, com tudo o que tem a oferecer, incluindo o monumental mármore original de Giambologna que representa o Oceano, e a voz de Sandro Lombardi me puxava para o texto. Sou um amador em teatro, reconheço, mas com tantos festivais no Brasil acho que poderíamos substituir Bob Wilson, que apresenta sempre o mesmo espetáculo, por Federico Tiezzi, ou pelo menos somar o segundo, e seria uma aquisição e tanto. Federico é cinéfilo. Conversamos sobre Proust, e já que ele montou Swann, aproveitamos para espicaçar Jean-Claude Carrière e Volker Schlondorff, que adaptaram o livro, e para elogiar Raul Ruiz, por seu Tempo Ritrovato. E Tiezzi ama Luchino Visconti, Rocco e Seus Irmãos, o que imediatamente o elevou ao meu panteão. Ele montou Giovanni Testori, autor de Il Ponte della Ghisolfa, que inspirou o clássico de Visconti. Terminamos a noite – Francesca, Dib, Marcelo Cordeiro (ligado ao Grupo Galpão) e eu – jantando num argentino da Viale Proconsole. Empanadas, carnes, bons vinhos. Estou amando Florença, viu Tuna?

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