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O resto é silêncio

Luiz Carlos Merten

27 de maio de 2016 | 05h34

PARIS – Volto hoje à noite para o Brasil. Home! Enquanto isso, saio de um cinema e entro em outro, de tal maneira essa cidade é atrativa para um cinéfilo empedernido. No Reflet Médicis, como já contei, começou a mostra Cannes à Paris, Cannes em Paris, com os filmes de Un Certain Regard. Vi ontem dois. Voir du Pays, dirigido por duas mulheres, Delphine Coulin e Muriel Coulin, e Captain Fantastic, de Matt Ross, que tanto encantou Rodrigo Fonseca. Abrindo minha tarde e encerrando a noite – Um Certo Olhar ficou no meio, como recheio do sanduíche -, revi dois clássicos de Joseph L. Mankiewiocz. La Comtesse aux Pieds Nus, A Condessa Descalça, e De Repente, no Último Verão. A Condessa é, para o cinema, o que A Malvada/All About Eve é para o teatro. Começa num enterro, sob a chuva. Um homem, o cineasta Humphrey Bogart, em frente à estátua de uma mulher. Por que as estátuas não têm olhos, perguntava-se a Cleópatra de Elizabeth Taylor? Confesso que quase troquei minha passagem, mas, além de não ter lugar no fim de semana – teria de ficar até segunda -, sairia caro. É que amanhã, no ciclo de reprises de Mankiewicz, pegando carona na reedição, em cópia nova, de Sangue do Meu Sangue, passa a versão do diretor, e também restaurada em 4K, de Cleópatra. Quatro horas e 11 minutos, 251 minutos! Cleópatra e A Condessa são diferentes versões de Cinderela. A ambiciosa rainha do Nilo encontra em Júlio César o príncipe que a eleva ao plano dos deuses, mas as estátuas não têm olhos, isto é, não têm vida. Com Marco Antônio/Richard Burton, Liz/Cleópatra conhece o amor. Fragiliza-se, é a sua ruína como mulher. De alguma forma, o tumultuado romance que Liz e Dick viveram durante as filmagens está impresso na tela. A Condessa é sobre uma dançarina de cabaré, de Madri, que vira estrela em Hollywood. Maria Vargas! – Ava Gardner em seu maior papel. O mundo pode estar a seus pés, mas isso não preenche o vazio que consome a ‘diva’. Maria busca seu príncipe, encontra o conde Torlato Favrini, Seria a história de amor perfeita, exceto pelo fato de ele ser impotente. A Condessa tem um lado viscontiano – os esplendores condenados. Desenrola-se em três espaços, três mundos que compõem um só, e que é fúnebre. No Oriente, estar descalço é preparação para a morte. O conde é o último de sua linhagem. Sua casa aristocrática vai se extinguir com ele, mas o conde/Rossano Brazi tem o orgulho dos nobres. Não pode aceitar a vitalidade, a necessidade de sexo de Maria, como se o título com que ele a ornamenta bastasse para exigir fidelidade. Saio em choque de A Condessa Descalça e emendo com os filmes de Cannes. O mais interessante (desconcertante?) é o de Matt Ross,. Capitãp Fantástico. Viggo Mortensen vive com os filhos no mato. A mulher e ele, como pós-hippies, recusaram o sistema (e a riqueza da família dela). As crianças têm uma vida alternativa. Sabem sobreviver em condições adversas, mas são totalmente inaptos para o convívio social, quando têm de voltar à ‘civilização’. O filme é bem bom, e talvez tivesse ficado comigo se, ao sair da sala, tivesse ido jantar. Mas resolvi emendar com o segundo Mankiewicz. Há um revival de Tennessee Williams no Brasil. A colagem de Memórias não Inventadas, de André Garolli, e a (re)montagem de Gata em Teto de Zinco Quente, com Bárbara Paz, que pretendo ver, tão logo volte para São Paulo – é minha prioridade 2, a 1 é Rainhas do Orinoco, de meu amigo Gabriel Vilela. Há aqui um ciclo Elizabeth Taylor. Quase fui rever a Gata, mas achei que seria injusto com Bárbara. É melhor que Liz, e aquela combinação, fiquem num compartimento do meu imaginário. Mankiewicz, em De Repente, no Último Verão, cria outros três espaços fúnebres – a casa de Violet e Sebastian Venable, com seu jardim venenoso, a praia de Cabeza del Toro, com seu sol que queima, e a clínica em que Violet quer enterrar viva a sobrinha, para que Catherine não revele o que ocorreu no verão passado, desvendando o segredo da vida e morte de Sebastian. Não pude deixar de pensar. Apesar dos Bolsonaros, vivemos uma era de aceitação da homossexualidade. O casamento gay faz parte dos direitos civis, ainda existe preconceito, certo, mas é ilegal. Pode-se lutar, até juridicamente, contra ele. Em toda parte, pares de gays andam de mãos dadas, trocam beijos, carícias, eles e elas sonham com seus príncipes e princesas. O que pensaria disso um gay convulsivo como o autor de Gata em Teto de Zinco Quente e De Repente, no Último Verão? Sebastian e sua mãe são predadores de última geração. Talvez não seja a condição do homossexual, mas o excesso de poder e dinheiro de Violet. Sebastian, profissão poeta. Ele cria um poema por ano. Dedica ao ofício nove meses, o tempo de uma gestação. Nos três restantes, caça – homens, para satisfazer seu apetite colossal. Morenos, loiros de olhos azuis. E usa primeiro a mãe, depois a prima, como iscas. Sebastian é carnívoro. Precisa de carne sempre fresca e Tennessee Williams tece uma fábula – no jardim de Sebastian há uma planta carnívora. Lembra um pouco – antecipa – Pier Paolo Pasolini, Porcile. As crateras fumegantes, como ânus vorazes. E Rosa Von Prauheim, Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que vive. Alguém dirá que De Repente no Último Verão é teatro filmado. Não é. A mise-en-scène de Joseph L. Mankiewicz constrói-se no dinamismo dos diálogos, toda tragédia passa pela palavra em seu cinema. Liz Taylor, obscenamente bela no seu maiô branco, Montgomery Clift e Katharine Hepburn são geniais. Bigger than life. Fecho os olhos e revejo o filme inteiro. O resto, como diria Cleópatra – Mankiewicz evocando Shakespeare -, é silêncio.