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O que seria de Lili sem Gerda? O enigma de A Garota Dinamarquesa

Luiz Carlos Merten

15 de março de 2016 | 08h37

Fui ver somente ontem à noite A Garota Dinamarquesa. Não me perguntem por quê (demorei tanto). Por motivos muito pessoais, que não vale a pena enunciar, achei que não fosse gostar. O diretor Tom Hooper e Alicia Vikander me dobraram. No final, me emocionei com Eddie Redmayne, embora não a ponto de achar que ele merecesse tirar o Oscar de Leonardo DiCaprio, o ‘revenant’. Tom Hooper é um caso curioso. Não gosto de O Discurso do Rei, e certamente não teria dado aquele Oscar para Colin Firth. Se o ator alguma vez mereceu o prêmio foi pelo Tom Ford, A Single Man/Direito de Amar. Não tenho paciência com a realeza inglesa, embora, eventualmente, ache divertida a representação da brutalidade e vulgaridade dos reis e rainhas ingleses em filmes como O Leão no Inverno e Beckett, o Favorito do Rei. E o curioso é que, se alguém me iluminou o rei sem discurso, porque gago, foi Madonna. O filme dela tem uma cena, a cerimônia do chá, que vale todo o Discurso, com Oscar e tudo. Sei que tem gente, críticos, que se escandalizam com isso. Defender Madonna! Acham-se superiores a ela, os pobres, com seus Deleuzes de pacotilha. Mas, vejamos, O Discurso do Rei não é sobre o rei gago que precisa superar seu handicap. Sem discurso, ele não se legitima. O filme é sobre a mulher, a rainha, e o fonoaudiólogo, cada um com seus motivos para dotar o rei de uma linguagem. Continuo não gostando do filme, mas gosto de Tom Hooper em Os Miseráveis. Já brinquei aqui no blog dizendo que as cenas da Comuna de Paris são a nova escadaria de Odessa. Já devo ter visto a cena de Hooper umas cem vezes (exagero – umas dez). Eddie Redmayne é magnífico como incitador das massas. E chegamos à Garota. O filme mostra esse pintor dinamarquês que descobre sua natureza feminina. Descobre que tem uma mulher aprisionada dentro dele, e resolve liberá-la. Um pioneiro do movimento transgênero. Não sabia que o filme terminava daquele jeito. De certa forma, um anticlímax, compensado pela imagem da écharpe voando. A écharpe é a personagem principal, o elo entre o pintor e a mulher. Brinco. Não brinco, não. O filme de Tom Hooper é sobre Gerda, a mulher de Einar Wegener. Se fosse para fazer um filme sobre uma transgênero – só -, o diretor teria outros exemplos e até mais bem sucedidas. A francesa Coccinelli, por exemplo. Mas ela/Coccinelli não teve uma Gerda. Quase no fim do filme, Einar, já como Lili, faz a pergunta visceral. De onde vem tanto amor daquela mulher por ele/ela? Fui fazer uma pesquisa, depois, porque na verdade não conhecia aquelas personagens. Encontrei explicações contemporâneas de que Gerda talvez fosse homossexual, ou pelo menos bissexual. Tom Hooper não esclarece, mas é uma questão em aberto. Faço uma pausa para tergiversar. Os críticos, em geral, desautorizam os filmes que psicologizam e criam reações de causa e efeito para explicar certos comportamentos fora do padrão. Quando o diretor não explica, como aqui, são eles a tentar simplificar. Alicia Vikander ganhou o Oscar de coadjuvante. Confesso que torcia por Kate Winslett, de Steve Jobs, mas entendi por que ela ganhou. É a personagem mais complexa de A Garota Dinamarquesa. Einar/Lili, na verdade, é bem convencional. Quer ser mulher para achar seu homem e ter filho. Ben Wishaw não lhe serve porque é gay. Gerda ilumina todo o cinema de Tom Hooper. Helena Bonham Carter, como a mulher do rei gago, protege o marido ou o trono? Ambos? Essas mulheres apaixonadas, protetoras de Hooper são guerreiras em prol de seus homens frágeis. E, quando a mãe desaparece – a Fantine de Anne Hathaway -, alguém tem de tomar seu lugar para proteger a garota (Cosette) em Os Miseráveis, e é Jean Valjean. Começo a achar que Tom Hooper é um ‘autor’ mais interessante do que pensava.