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O que os amantes podem aprender, lovers must learn (no cinema)

Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2017 | 11h57

Fiz hoje um destaque de TV no Caderno 2. Cartas para Julieta. O longa de Gary Winick passa às 17h55 no Telecine Touch. Bad movies I love. Guilty pleasure. Amanda Seyfried vai para a Itália com o noivinho e se decepciona com Gael García Bernal. Descobre, em Verona, que existe um serviço muito especial – muita gente escreve cartas para a heroína de Shakespeare, para que ela as ajude a resolver seus males de amor. Amanda integra-se ao grupo que responde a essas cartas. Apaixona-se pelo caso de Vanessa Redgrave. No passado, Vanessa amou um homem, do qual se separou. Amanda a acompanha pela Itália numa viagem em busca do seu amado. Vai junto o neto da velha dama, e você percebe como Amanda e ele vão se aproximando. Entra em cena, a cavalo, Franco Nero, eterno Django. Em 2017, completam-se 50 anos de Camelot, o musical de Joshua Logan sobre o mito arthuriano. É ruim demais, mas também é o cinquentenário da união de Nero e Vanessa. Estão juntos desde então. Nunca mais se largaram. As cenas dos dois em Cartas para Julieta possuem uma espessura, uma aura. Não me canso de ver o filme quando estou zapeando e entram as imagens. Leonard Maltin diz, em seu guia de filmes, que é previsível, mas tão charmoso que se torena irresistível. E as paisagens italianas enchem os olhos. É curioso, mas Cartas para Julieta pertence a uma linhagem de filmes que remonta a Candelabro Italiano, de Delmer Daves, de 1962. Suzanne Pleshette é professora de literatura numa escola puritana dos EUA. O mundo já estava mudando, mas o conselho da escola a pune por incentivar seus alunos a lerem livros ‘proibidos’. Suzanne diz que vai para a Itália, onde as pessoas não têm medo de amar. Rome adventure/Lovers Must Learn. Ecos de A Doce Vida, de Federico Fellini – a mudança chegou antes em Roma. Suzanne se envolve com Troy Donahue, que anda naquela lambretta. Ele tem um affair com Angie Dickinson. Suzanne se envolve com Rossano Brazi. Al di La… Pode ser bobagem, mas lá se vão 55 anos e me lembro sempre da cena de Constance Ford. Suzanne acaba de chegar a Roma, encontra essa americana madura. Disse que veio em busca do amor de verdade, Constance diz que Suzanne está no lugar certo. A Itália é o lugar em que os homens sabem ‘besliscar’ uma mulher. Suzanne pergunta – ‘And they still do?” Constance, com aquele sorriso – ‘Always!’ Tudo isso hoje seria incorreto, mas fez a fama do filme como um dos clássicos românticos dos anos 1960. No dicionário de Cinema, Jean Tulard lamenta que, justamente o gosto de Daves pelos melodramas, o impeça de ser reconhecido, pela maioria da crítica, como o grande diretor que foi – de westerns e policiais (noir). Mais de 40 anos depois de Candelabro Italiano e 11 antes de Cartas para Julieta, Audrey Welles fez Sob o Sol da Toscana, em 2003. Diane Lane sofre uma decepção amorosa, as amigas se cotizam e lhe compram uma passagem para a Itália. Ela vai e se encanta por uma velha quinta, que compra e resolve restaurar. Entra em cena Raoul Bova e o resto você não precisa imaginar – já sabe. Sob o Sol da Toscana tem, para mim, um significado todo especial. Entrevistei, certa vez, no Festival de Veneza, Mario Monicelli. Ele odiava críticos. Chamava-nos de parasitas. Monicelli é ator em Sob o Sol da Toscana. Faz um velho emburrado, irascível. Passa o filme olhando duro para Diane, mas, no fim, na última cena, abre um sorriso para ela. O sorriso de Monicelli! Pode não significar nada para os outros, e a maioria do público que viu o filme de Audrey Wells talvez nem soubesse quem era aquele velho. Eu sabia, eu sei. Monicelli morreu em novembro de 2010, sete anos após sua participação no filme de Audrey. Fez só mais um longa, depois – As Rosas do Deserto, uma comédia de guerra com Michele Placido. Nunca mais vi seus filmes do mesmo jeito. Já o admirava. Audrey Wells, humanizando-o, me fez gostar mais ainda. E toda essa conversa começou com essa vertente tão específica do romance. Amar na Itália, amar a Itália. Não creio que consiga ver, à tarde – vou estar trabalhando -, Cartas para Julieta, mas gostaria. E também gostaria que minha amiga italiana, Francesca Della Monica, lesse esse post. Francesca divide-se entre a Itália e o Brasil, responsável pela dicção perfeita dos atores nas montagens de meu amigo Gabriel Villela. Espero que a gente se reencontre ainda muitas vezes, aqui – e lá. Em Florença. Esse post é para ti, Francesca. Buon anno, cara. Auguri!