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O que mudou para Glenn Close estar chegando lá?

Luiz Carlos Merten

28 de janeiro de 2019 | 14h50

Houve um momento ontem, durante a premiação do SAG, em que Glenn Close e Michael Douglas subiram ao palco para apresentar um prêmio. Glenn e Douglas. Alex Forrest e Dan Gallagher! É como se chamam os personagens da dupla em Atração Fatal. O longa de Adrian Lynne é de 1987 e há 30 anos, 32, para lá de seu significado estético, o filme virou um verdadeiro fenômeno sócio/cultural. Você se lembra. Alex e Dan vão para a cama, no que, para ele, será apenas a relação de uma noite, entre duas pessoas adultas. Mas Alex quer mais – amor? – e passa a persegui-lo, a ponto de transformar sua vida de casado num inferno. No limite, a mulher traída – Anne Archer – pega em armas para se livrar da intrusa que ameaça seu lar. A própria Glenn admite que a personagem marcou tanto que, desde então, ela sempre sentiu uma certa apreensão nos homens com quem cruzou e que se intimidavam perante ela. Glenn fez escola na criação de mulheres perigosas – desequilibradas? Vieram depois a Marquesa de Merteuil (Ligações Perigosas/Dangerous Liaisons), a rainha (Hamlet), Cruela Cruel (Os 101 Dálmatas e Os 102 Dálmatas), etc. Glenn parecia talhada para ser a sucessora de Bette Davis na pele da malvada. Personagens maiores que a vida lhe caíam como luvas. Não por acaso, colheu prêmios e o aplauso do público ao recriar Norma Desmond na versão musical de Sunset Boulevard. Como tal, a malvada, cravou seis indicações para o Oscar, chegando agora à sétima com A Esposa. Isso faz de Glenn a atriz viva com maior número de indicações e que jamais recebeu o prêmio da Academia. Na mesma situação, só Peter O’Toole, também com sete, e Richard Burton, com oito, mas ambos já morreram. Ninguém mais duvida que Glenn, referendada pelo SAG Award, vá receber o Oscar de melhor atriz em 24 de fevereiro, É uma interpretação extraordinária e o senso comum é de que há muito ela já deveria ter seu Oscar na estante. Não foi por outro motivo que Gary Oldman, o vencedor do ano passado – pelo Churchill de O Destino de uma Nação – ajoelhou-se diante dela, mas algo se passou para que Glenn esteja chegando lá. Nem Alex, nem Merteuil aceitariam viver à sombra de um homem, escrevendo os livros pelos quais ele ganha o crédito (e o prêmio Nobel) na ficção do sueco Bjorn Runge. A malvada precisou aparar suas garras de tigresa para empalmar o SAG, e daqui a menos de um mês, o Oscar? Em fase de empoderamento feminino, a poderosa Joan Castleman não mete medo. Está mais para heroína fordiana – a grandeza dos derrotados. É curioso que a grande vitória de Glenn Close esteja vindo assim. Meio na contramão?