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O que Ineses e Vice têm em comum? O cinema que espelha o público e o privado do mundo

Luiz Carlos Merten

01 de fevereiro de 2019 | 23h58

Foi um dia bem intenso, com físio, filmes e textos para o jornal. Como a perna não desinchou, e viajo à tarde para Paris, Carlos já disse que amanhã vai me submeter a um tratamento de jogador de futebol – meia-hora com a perna num balde de gelo. para embarcar, vou ter de sobreviver a isso. Fiz hoje um duplo (de cinema) que mexeu muito comigo. Pela manhã, queria ir à cabine de Van Gogh, a versão de Julian Schnabel, com Willem Dafoe, mas me enganei de sala, ou shopping, e terminei vendo As Ineses, de Juan Pablo Meza. Dois bebês, duas meninas, trocadas no hospital. O pai negro estranha aquela menina loira, os loiros se sentem desconfortáveis com sua pequena ‘morocha’, mas, no final, tudo se esclarece. A quebra de confiança, no amor e na vida. A dúvida, a incerteza e, quando tudo parece esclarecido, o twist final, a confirmação de uma surpresa inesperada. Saí do cinema mexido – uma sensação indefinível de tristeza, mas não uma coisa para baixo. O filme é tão bonito. Tem vida, morte, alguém perde a perna. Já vi, do diretor, Buenos Aires 100Km, sobre um grupo de meninos amigos que pedalam na vida e vão descobrindo o sexo, e A Velha dos Fundos, que cede quarto para garoto de quem quer somente a companhia – somente? Esse Pablo Meza, como também é conhecido, faz filmes pequenos, mas muito interessantes. Saí do cinema, no Shopping Cidade de São Paulo, passei pelo médico, Dr. Marcos, no HCor, para pegar uma receita de anticoagulante para prevenir problemas no voo de 12 horas, e emendei com Vice, de Adam McKay, no Belas Artes. As Ineses havia mexido comigo de um jeito muito íntimo, McKay me derrubou porque me confrontou com o mundo, a derrocada dos valores que tem dado a tônica da ascensão planetária da direita, por mais que essa gente fale em família, tradição e propriedade (tudo ‘deles’). Em A Grande Aposta, já com Christian Bale e Steve Carrell, McKay se perguntara onde está o dinheiro nesse mundo de operações virtuais. Em Vice, sobre o ex-vice-presidente Dick Cheney, ele se pergunta sobre o poder num mundo regido pela burocracia. O filme é sobre os EUA, mas explica o Brasil. O baixo clero do Congresso, o conluio da Justiça. Lá pelo meio do filme, a história termina e começam a rolar os créditos. Bye-bye, Dick. Mas aí, no meio desses créditos, toca um telefone e pára tudo. George W. Bush convida Cheney para ser seu vice, e a história não só recomeça como atinge seu real significado. Cheney negocia um acordo e, na sociedade da imagem, como é possível que burocratas aparentemente insignificantes como ele sejam os verdadeiros donos do poder? Não é só Christian Bale, é a dupla que Cheney forma com a mulher, Amy Adams, aproveitando a mediocridade/inexperiência de W/Sam Rockwell, e eu dava o Oscar para o trio, para o filme, mas isso não vai ocorrer. Academia de m… McKay cria uma comédia absurda, rompe a quarta parede e coloca personagens conversando com o público e, no limite, subverte a própria ficção, com um grupo que avalia o filme e um partidário do atual presidente Donald Trump não só o denigre como ‘liberal’, como também cobre de pancada outro integrante do grupo que não compartilha suas ideias. O público e o privado. Meu mundo caiu vendo esses filmes tão diferentes, mas que se completam. A única coisa que poderia ter absolvido Cheney como ser humano – sua defesa da filha lésbica – vira uma pérfida jogada política na qual a mulher e ele se comprometem. Vice é sobre a dificuldade de manter a sanidade num mundo em que a traição continuada e a falta de ideais viraram o (não) valor.

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