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O que há de forte no Padilha, Sete Dias em Entebbe

Luiz Carlos Merten

21 Abril 2018 | 10h51

Estou relendo, na Carta Capital, um velho (de 2005) ensaio de Umberto Eco, O Celular Revisitado, a parte em que ele cita Maurizio Ferraris. Dove Sei? Ontologia del telefonino. Ferrris foi dos primeiros, até onde sei, a pensar uma filosofia do celular. Diz uma coisa interessante. Quer dizer, Eco diz, a partir dele. O celular é cada vez menos um instrumento de oralidade e cada vez mais um instrumento de escrita e leitura. Eco, obviamente, não tinha muito apreço pelo celular e até é sarcástico. Diz que essas pessoas que ficam falando alto – de vida privada a investimentos econômicos – são patéticas e não contam nada, porque os poderosos, os que vão f… com a gente pelo telefone, têm um monte de assessores para isso e não ficam perdendo tempo. Aliás, produzir conteúdos de graça como fazemos quase todos na internet, incluindo eu no blog, só enriquece esses Zuckerbergs da vida, canalhas. A desculpa do Zuckerberg no Congresso dos EUA, além de não esclarecer nenhuma dúvida sobre privacidade, foi de um cinismo exemplar, coisa de Michel Temer defendendo seu governo ao falar, ontem, sobre o espírito dos Inconfidentes. Pobre Tiradentes, esse herói enlouquecido de liberdade, como a ele se referia o Neves que valia, Tancredo. Volto ao celular. Por uma questão de economia, praticidade e urgência, o celular está inventando uma nova linguagem, de palavras abreviadas, adulteradas, sei lá. Tomei um choque ao ver Sete Dias em Entebbe, menos, talvez, pelo filme de José Padilha que pela legendagem da distribuidora Diamond, que adota essa linguagem do celular. Chegou lá pelas tantas, estava tão saturado daquelas legendas que comecei a me abstrair para prestar atenção somente no diálogo original. Foi uma experiência única, para mim, em termos de legendagem em português- nunca havia passado por isso. Sobre o Padilha, escrevi um texto para o Caderno 2 de hoje. Não creio que tenha dado conta da impressão – do impacto? – que o filme me produziu. Gostei do formato de documentário, que reconstitui o dia a dia da operação de sequestro e resgate de um jato da Air France por um comando germano-palestino, nos anos 1970, em Uganda. Como todo Padilha, sempre interessado em denuncioar o funcionamento de um sistema (de segurança, ideologia, política, etc) por meio da crise de seus agentes, o que interessa é sempre a tensão interna. As divergências entre os palestinos da OLP e os alemães do Baaader Meinhoff, e do premier Yitzhak Rabin e seu minstro da defesa, Shimon Perees, no gabinete israelense. Num plano mais íntimo, familiar, o que acontece com o especialista de tiro e a mulher bailarina – todo o conmceito da mise-en-scène estrutura-se sobree essa tensão particular e a operação é filmada em paralelo com a performance dos bailarinos no palco. Como o filme me surpreendeu – malgrado as limitações de um baixíssimo orçamento, para os padrões internacionais -, resolvi pesquisar na internert para ver as reações ao filme, desde Berlim. Encontrei desde thriller convencional, The Hollywood Reporter, até (só vi a chamada) alguma coisa na Folha de que Padilha não conseghue manter a tensão. Não concordo muito, nem lá nem cá, e para mim o que faz a diferença é esse aspecto que me pareceu negligenciado, que é justamente a dança, a arte, como a chave do que Padilha está querendo dizer. No próximo post, e sobre um outro filme, vou voltar a esse tema da arte vs. violência, mais até do que arte vs. vida. Posso estar equivocado, quem sabe?, mas dois aspectos me pareceram cruciais em Sete Dias em Entebbe. A culpa que o personagem de Daniel Bruhl carrega, o editor antes que revolucionário – um alemão (neonazista?) sequestrando judeus -, e a oposição entre Rabin e Peres. O primeiro é arrastado à operação militar pelo segundo, mas protesta dizendo que um dia Israel terá de negociar com os palestinos. Em 2018, informa o letreiro final, nenhuma negociação está em curso.