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O que fazer com toda essa raiva?

Luiz Carlos Merten

25 de junho de 2017 | 13h48

Nunca planejei vir para São Paulo e, na verdade, saí de Porto Alegre bastante tarde – com 43 anos. Por um período que, na época, me pareceu imenso, fiquei anos nas editorias de Esportes e Mundo de Zero Hora, antes de recomeçar a escrever sobre cinema no Suplemento de Cultura. Minto. Nunca deixei de escrever – para mim. Tinha centenas (milhares?) de críticas não publicadas e que minha ex, a Doris, resgatou em parte. Haviam ficado numa caixa em casa dela. Pedi à Denise, secretária do Caderno, que digitasse parte delas para mim. Tenho a impressão de que algumas cheguei a postar aqui. Perderam-se – as laudas originais e os textos digitados. Não lamento nada disso, quero só dizer que, muitas vezes, quando estava em Porto, eu me exasperava porque me parecia ser sempre o último com as primeiras, fatal no jornalismo. Naquele tempo, os filmes estreavam primeiro no eixo Rio/São Paulo e demoravam para chegar à província. Hoje, não apenas os lançamentos são simultâneos como a internet devora tudo. Não existe mais o lapso temporal. Penso isso, e não é de forma depreciativa, juro, cada vez que recebo a revista Teorema. Recebi esta semana o número 28. Manter uma das raras revistas de cinema impressas do Brasil fora do eixo é uma extraordinária resistência e só pode ser elogiado, mas tenho um pouco essa sensação de anacronismo que já tinha no passado. Às vezes penso que vim para São Paulo para fugir a isso. Isabelle Huppert, Elle, faz a capa do novo número, Junho de 2017. Vi o filme em Cannes, em maio de 2016. O debate, de alguma forma, me parece um ano atrasado. Dei uma olhada geral e confesso que li – todo – apenas o texto de Roger Lerina sobre o Joaquim de Marcelo Gomes. Gostei do título e do foco – “O que fazer com toda essa raiva.’ E não é uma interrogação. Roger, pegando carona no filme, expressa um mal-estar muito atual que qualquer pessoa lúcida e bem pensante experimenta hoje no Brasil. Vi a capa da nova edição daquela revista nas bancas. ‘O presidente encolheu.’ Encolheu, como, cara-pálida? Dar crédito a esse presidente como estadista só pode ter sido uma fantasia da imprensa golpista. Tudo foi feito para agigantar o nanico. Nosso (ou ‘deles?’) Drácula é, sempre foi, um mico. O que fazer com toda essa raiva? A interrogação, agora, é minha.

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