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O que fazemos?

Luiz Carlos Merten

02 de fevereiro de 2014 | 09h54

BELO HORIZIONTE – Pela procedência, vocês já sabem onde estou. Vim ontem. Descobri que havia um ciclo de filme noir na Sala Humberto Mauro do Palácio das Artes. Era o último dia, e a programação incluía Key West, Paixões Em Fúria, de John Huston; Rififi, de Jules Dassin; e A Morte Num Beijo/Kiss Me Deadly, do meu amado Robert Aldrich. Vocês podem não acreditar, mas embora tenha feito muitas matérias citando Rififi, nunca fiz a crítica do filme porque nunca o havia visto. Decidi que seria ontem. Dib Carneiro me acompanhou. Ficou tão chapado quanto eu com o fatalismo de Dassin, coisa típica do noir – é gênero ou estilo? Vocês me desculpem, mas havia feito um post enorme, que perdi. Preciso fazer as matérias do encerramento da Mostra de Tiradentes para o Caderno 2. Os dois júris, o da Crítica e Jovem, premiaram A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, meu preferido, com menção para Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós. Na quarta, depois de assistir aos dois primeiros concorrentes, fiz um texto, talvez precipitado, dizendo que a Mostra Aurora corria o risco de cair na mesmice, com filmes de um mesmo perfil – processuais e sociais. Mas tinha gostado muito do filme de Uchoa, o primeiro a ser exibido. A paixão permaneceu até o final e, depois de ver o Adirley Queirós, fui lá abraçar o Affonso e sussurrar no ouvido dele que o Tigre continuava sendo o meu candidato ao Barroco. A verdade é que a seleção foi mudando e não parou de me surpreender, até o fim. E houve o encontro com Andrea Tonacci e Luiz Rosemberg Filho. Se Tiradentes, e a Mostra Aurora, celebram a autoria, nada mais natural que esses dois tenham feito o encerramento com seus novos filmes. O de Rosemberg, Linguagem. O de Tonacci, Já Visto, Jamais Visto. Puta título. Poderia ser a síntese de Tiradentes, assim como o debate/encontro poderia pegar carona no título do filme do paranaense Arthur Tuoto. Aquilo Que Fazemos com Nossas Misérias. Rosemberg bateu duro na Ancine. Tonacci criticou a formatação do cinema brasileiro para o mercado. Disse que o sucesso de alguns filmes é resultado de estratégias de marketing, não de criação. Autor de Serras da Desordem, cravou que a burocracia da Ancine está matando, ou inviabilizando, o cinema indigenista no Brasil. E foi duro (realista?) – ‘Somos todos índios.’ A garotada – a plateia de Tiradentes é predominantemente jovem – ouvia a dupla mais que atenta. Em adoração. Os ‘mestres’, dois resistentes. Tiradentes inicia a temporada dos festivais. Volto daqui a pouco para São Paulo e na terça sigo para Berlim. Paro por aqui. Tenho as matérias para fazer e ainda quero almoçar no restaurante da Dona Lucinha. Minas – e Tiradentes – não são só alimento para a alma.

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