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O que é, o que é?

Luiz Carlos Merten

25 de junho de 2013 | 17h20

Havia redigido um post de manhã, ainda em casa, antes de sair para a cabine de Homem de Aço. era um pensata em cima de um detalhe que me havia escapado ontem, no post sobre O Lugar Onde Tudo Termina. No segundo bloco, com Bradley Cooper, o diretor Derek Cianfrance vai na contramão de John Ford. Enquanto nas epopeias fordianas há uma celebração da grandeza dos derrotados – o extraordinário Tom Doniphom de John Wayne em O Homem Que Matou o Facínora, que se recolhe às sombras e permite que Ramson Stoddard/James Stewart assuma os louros por haver derrotado Liberty Valance, e ele faz isso por amor à personagem de Vera Miles -, em Onde Tudo Termina o tira que virou herói e inicia uma carreira política é, na aparência, um vencedor, mas quando ele se ajoelha e pede perdão percebemos que é um derrotado. No terceiro segmento, com os filhos,  o do ‘vencedor’ assume a postura de quem vai tirar vantagem e o do ‘derrotado1’ cai na estrada, de moto, refazendo a trajetória sem destino que levou o pai à destruição. Eta, fatalismo doentio, mas a construção é interessante e dá margem para que se pense. O post era mais ou menos sobre isso 3e lá me fui correndo para o Man of  Steel, louco para ver o que Zack Snyder havia feito com a mitologia do Superman, já que seu objetivo, a partir da primeira abordagem de Christopher Nolan – que abandonou o projeto -, era justamente restaurar o mito, em toda a sua grandeza. No texto que fiz para o Caderno 2 de domingo, reproduzindo minha visita ao set em Plano, nas proximidades de Naperville, subúrbio de Chicago, não consegui encaixar as conotações bíblicas que são essenciais no mito, a simbologia de Kal-El como reificação do Cristo, e que Zack Snyder claramente abordou como importantes para ele. Não falei com ninguém na saída da sessão porque confesso que precisava de alguns momentos sozinho. Apesar de todos os efeitos, e das batalhas de Smalville – a que vi filmar – e a de Metropolis, o que ficou comigo foi só o intimismo. A bela história de amor entre Clark Kent e Lois Lane – Zack Snyder me disse que nunca houve uma Lois como Amy Adams e é verdade – e a história do herói e de seus dois pais. Me desculpem pelo que pode parecer viadagem, mas conversando com Henry Cavill, no set, não tinha ideia da persona que ele iria projetar na tela, mas Zack Snyder, poderoso, já me havia dito que aguardasse. O que é aquele cara? O mundo interior que ele revela naquele olhar ferido, tenso, angustiado? Teremos tempo de falar sobre Man of Steel, mas quero deixar consignado que a fala final de Diane Lane e o olhar de Kevin Costner já fazem parte das minhas grandes emoções no cinema. Sim, sou pai e isso conta, mas sou cinéfilo, e isso também conta. É um dos mistérios do cinema. Às vezes, e contrariando o próprio Shakespeare, é preciso muito barulho para se chegar a alguma coisa, e a alguma coisa de muito íntimo, que bate na tela como um sussurro.

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