As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O que é, o que é? Uma pequena formulação sobre teatro e cinema

Luiz Carlos Merten

29 de agosto de 2018 | 09h52

Meu blog, originalmente de cinema, tem abrigado cada vez mais comentários de teatro. É consequência do meu interesse pelo assunto, que foi incrementado pela convivência com Gabriel Villela e Dib Carneiro Neto, e não é porque essas pessoas não fazem mais parte do meu cotidiano que o teatro também vai deixar de ser importante para mim. O teatro fica, mas sinto que preciso voltar a falar mais de cinema. A verdade é que tenho feito muitas matérias – especiais – para o impresso do Estado, muitos perfis de mulheres maravilhosas (Karine Teles, Adriana Esteves, Patricia Pillar etc), que me têm permitido falar de filmes dos quais gostei muito – Benzinho, Benzinho, Benzinho. No impresso desta quarta tem a entrevista com Fernanda Pessoa, de Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava, que ainda não havia conseguido emplacar. Amanhã teremos Ferrugem e Yonlou. A vida segue seu curso. Jantamos ontem, Ubiratan Brasil, com Renata de Almeida, Margarida Oliveira e a Carol, e o assunto foi, também, a Mostra. A deste ano terá um programa especisal – três filmes – dedicado a Amos Gitai, e filmes que me impressionaram muito em Cannes, em maio. O Spike Lee, o Lars Von Trier, muito provavelmente o Kiril Serebrennikov, Leto/Verão, e o Sergei Loznitsa, Donbass. Tenho dito em eventos dos quais participei que meu melhor filme de Cannes este ano foi Leto, mas talvez não seja certo porque cada vez mais cresce, dentro de mim, a admiração pelo novo Nuri Bilge Ceylan, The Wild Pearl Tree. O que é o cinema? Não me canso de perguntar, e não é porque não tenha ideias, conceitos sobre os quais gosto de trabalhar. Mas dizer que o cinema é isso e adaptar a imensurável diversidade dos filmes a uma só camisa de força? Não é por aí, não comigo. Nesta noite, passa na TV paga um dos filmes farois da minha vida, Exodus, de Otto Preminger. O que seria o épico da fundação de Israel é muito mais um épico das palavras e da pluralidade dos discursos, porque Preminger e seu roteirista, Dalton Trumbo, recém saído da lista negra do macarthismo – em 1960 -, dão voz a todos os grupos em litígio no Oriente Médio no pós-guerra. O filme já começa com uma voz que não se sabe de quem é, nem de onde vem. Vozes. Fiz um destaque de TV no Caderno 2 de hoje e é curioso como, para mim, cabe em Exodus o Kedma de Gitai, que também dá voz ao israelense saído do campo de concentração como ao palestino expulso de suas terras. Há um personagem que me apaixona em Exodus, e é interpretado por David Oppatoshu. O líder terrorista. Sal Mineo faz uma entrevista para ser aceito na organização, e conta, e chora que foi utilizado como mulher pelos nazistas. Histórias de dor. Preminger costuma ser colocado no panteão por seus melodramas noir, como Laura, ou então pelos musicais, como Carmem Jones, mas o meu Preminger é o gênio que, nos anos 1960, realizou uma série de obras-primas discutindo o papel das instituições na organização da vida política e social das nações – revolução em Exodus, os partidos em Tempestade sobre Washington, a Igreja em O Cardeal, o Exército/Marinha em A Primeira Vitória etc. O que é o cinema? É Preminger!

Tendências: