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O que é, o que é? Cats!

Luiz Carlos Merten

29 de dezembro de 2019 | 11h02

Fui ver Cats na quinta, no início da tarde – a primeira sessão do Frei Caneca -, e desde então venho ruminando o musical de Tom Hooper. Ia escrever – ronronando. Todo mundo já falou mal. Permitam-me discordar, um pouco. O filme é um fracasso, não há a menor dúvida, mas é honroso, e eu gostei de ter visto. Aliás, quero rever. O filme não tem história, mas isso parece que o original, da Broadway, também não tinha, e nunca impediu seu extraordinário sucesso. Os elementos que levaram o diretor, o ‘autor’, a Cats são no mínimo curiosos – ele contou que foi o primeiro musical que viu e quando a indústria começou a lhe cobrar outro, após o sucesso de Os Miseráveis, não pensou muito. Mas a escolha não teve nada de instintiva, alimentada por uma velha lembrança. Pensem em O Discurso do Rei, o Verbo – T.S. Eliot está na origem do musical de Andrew Lloyd Weber, não? -, pensem em Os Miseráveis, a epopeia do grupo, a revolta da Comuna e o esforço coletivo para agora trazer de volta a velha Deuteronomy, abduzida por Macavity, pensem também em A Garota Dinamarquesa, as mutações do corpo humano. Tudo levava Hooper a Cats, mas sua ideia de live action, os gatos humanizados, não deu muito certo. O filme causa estranhamento, é bizarro, talvez ridículo, mas eu não consegui achar risível, como certos coleguinhas – dei-me ao trabalho de ler algumas críticas. E as cenas de dança são incrivelmente coreografas e filmadas. A fluidez da montagem é um escândalo. Assisti a Cats sem fazer a mínima noção do que estava vendo – o que é? O que é? -. mas certo de que 1) a luminosidade no rosto da estreante Francesca Hayward, que faz Victoria, é algo esplendoroso e 2) a rendição de Memory, por Jennifer Hudson, talvez seja a maior interpretação musical captada por uma câmera de filmar. Nunca vi nada tão visceral, vale a ida da personagem para o céu dos felinos. Comentei com Ubiratan Brasil, meu editor do Caderno 2, o cara mais louco por musicais que conheço, e ele me disse que o Hooper quase levou a atriz/cantora à loucura, repetindo a cena…. 40 vezes! Foi mais ou menos o que fez Carl Theodor Dreyer com a Falconetti em A Paixão de Joana D’Arc e ela, segundo consta, enlouqueceu de verdade. Deve ser isso. Jennifer canta como quem está despedaçada internamente, como quem não tem mais resistência. É, literalmente, uma rendição. Memory. Chorei, mas chorei copiosamente, de soluçar, ainda bem que o cinema estava vazio, teria pagado o maior mico numa sala cheia. Estou escrevendo o post e dou-me conta de que continuo sem saber o que vi. Um óvni. Cats desafia/subverte noções de realismo. Li em algum lugar que Hooper chegou a considerar a possibilidade de uma animação, e tem gente que acha que teria sido melhor. Mas ele descartou porque percebeu que não faria sentido. O filme precisa desse híbrido. Gatos-gatos disputando para ir ao céu seriam banais. Cats precisa, para além do bem e do mal, desse plus a mais. Os gatos tem de ser ‘diferentes’. A Universal tirou o filme da disputa do Oscar. Para Hooper, que tem sido um regular vitorioso, é um golpe e tanto. Seja lá quem for o vencedor ou vencedora da melhor canção terá de agradecer ao céu dos homens por Jen Hudson ter ido para o dos felinos e não estar concorrendo.

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