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O que é? O que é?

Luiz Carlos Merten

27 de outubro de 2013 | 12h45

O cinema? Está cada vez mais difícil de saber. Para mim pode ser o episódio de Victor Erice em Centro Histórico, que, a despeito da duração, talvez seja o melhor filme da 37.ª Mostra (e olhem que amo os filmes de Jia Zhang-ke e Joanna Lombardi). Mas me pergunto porque recebi a nova edição da série Os Filmes da Minha Vida. Dei uma folheada, li um pouco a seleção de meu editor, Ubiratan Brasil, um notório amante de musicais, e confesso que não sei o que me chamou a atenção no texto de Denise Fraga. Mas ela lembra sua infância no Rio, um cinema sugestivamente chamado de  Santa Alice, no qual assistiu a …E o Vento Levou e ficou impressionadíssima com a cena do incêndio de Atlanta. Um dia, o próprio cinema pegou fogo e, na imaginação infantil de Denise, foi por causa do clássico de David Selznick. De tanta abrigar o incêndio, a tela pegou fogo. Criança tem cada uma. O que me leva, a singeleza da menina Denise Fraga, a uma definição de Ruy Guerra, em  sua seleção, que amei (a frase, não a seleção) – ‘Ficção é a realidade que ainda não aconteceu.’ Não é maravilhoso? Mas o Ruy, que me merece respeito e, eventualmente admiração – pelos filmes antigos, principalmente -, diz que aos 80 anos pode-se permitir dizer o que pensa. Ele não gosta de Charles Chaplin nem de Woody Allen. Acha que o primeiro é cínico, e eu até aceito, porque todo mundo tem suas idiossincrasias e o Ruy tem as dele, embora o discurso final de O Grande Ditador me pareça tudo, menos a obra de um cínico e o Chaplin, no meu imaginário, é aquele discurso. Mas o Ruy, falando de Um Corpo Que Cai, diz que gosta da história, que nem Alfred Hitchcock conseguiu estragar. Sim, porque Ruy Guerra acha Vertigo – 1) malfilmado; e 2) Hitchcock, um mau cineasta. Um Corpo Que Cai nem é meu Hitchcock preferido e o filme, eleito o melhor de todos os tempos, também não precisa da minha defesa. Mas, ao ler, lembrei-me de uma coisa que não resisto e posto. Anna Magnani em Roma de Fellini. A câmera de Fellini a segue naquele beco e, quando ela vai abrir a porta de casa, o próprio Fellini, de trás da câmera, diz que aquela mulher é a encarnação da loba romana, que é icônica, a mãe das atrizes e a Anna olha para ele e faz um gesto de vai embora, vai dormir Federico, chega de conversa mole. Vertigo, mal filmado, e Hitchcock, mau cineasta? Vai, Ruy… Numa boa.

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