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O que é o cinema? É John Ford, e mais ainda se for em Monument Valley

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2019 | 11h56

PORTO ALEGRE – Monument Valley foi um sonho feito realidade na viagem que, até lá, fiz com Dib Carneiro. É um lugar que sempre esteve no meu imaginário por conta do cinema, e dos westerns de John Ford. Uma daquelas imagens está eternizada no meu descanso de telas, no laptop. Tive um choque, como já disse, ao rever Monument Valley, em preto e branco, em Paixão dos Fortes, na Cinemateca Capitólio. Foi ontem à tarde e Marcus Mello assistiu ao filme comigo. Lembro de uma entrevista de John Ford numa edição comemorativa de Cahiers du Cinéma, na fase de capa amarela. Era Cahiers ou Présence du Cinéma? Ford, de qualquer maneira, contava que recriou o célebre tiroteio do OK Corral da forma como lhe foi narrado pelo próprio Wyatt Earp. Paixão dos Fortes é de 1946. Pertence a uma época em que Hollywood celebrava os mitos do Velho Oeste. Cinco anos antes, Raoul Walsh fizera O Intrépido General Custer. É uma das mais belas representações do herói no cinema, e Errol Flynn vai para sua morte gloriosa, suicidando-se para defender os índios na batalha de Little Bighorn. Na concepção de Ford, o xerife enfrenta o velho Clanton e seus filhos em defesa da lei e da ordem. Anos mais tarde, o revisionismo histórico passou a pintar Custer como um celerado matador de índios e Earp e os irmãos como assassinos frios que matavam para expandir seu gado – o inverso da versão fordiana, em que Clanton rouba a boiada do xerife e mata dois de seus irmãos. Em 1957, John Sturges fez Sem Lei sem Alma, recriando a versão ‘oficial’ do tiroteio no curral e, dez anos mais tarde, já sob o impacto da documentação histórica, corrigiu-se com o desmistificador A Hora da Pistola. Independentemente da ‘verdade’, O Intrépido General Custer é um dos filmes de minha vida e o movimento de câmera quando Flynn se despede e Olivia De Havilland cai desmaiada, sabendo que ele vai morrer, vale, sozinho, como uma definição do que é o cinema, para mim. Gostei muito de rever Paixão dos Fortes – My Darling Clementine, no original. O filme é exemplar como espelho do tema por excelência de Ford – como, ou quanto custa, construir uma civilização? Henry Fonda e os irmãos chegam a Tombstone, cidade sem lei, e tudo o que Earpa faz é para reformar o mundo. Algumas coisas, por conta do politicamente correto, ficaram intoleráveis, como o pontapé na bunda do índio bêbado, mas as cenas do baile e a do ator, quando Doc Holliday/Victor Mature recita Shakespeare e Fonda e ele pegam em armas em defesa da cultura, contra iletrados totalitários como os Clanton, são deslumbrantes. O maniqueísmo explica o desfecho dos personagens de Mature e Linda Darnell o redimir-se na morte, e nada define melhor o esforço civilizatório que a decisão da querida Clementine, Cathy Dobbs, de permanecer em Tombstone como a primeira professora da cidade, na escola que será construída. Esse final leva diretamente à cena da escola e da aula de democracia para as crianças de O Homem Que Matou o Facínora, 16 anos mais tarde. Puta filme bonito, e ainda tem, Monument Valley. Qu’est-ce que le cinéma, o quer é o cinema? Repetindo Orson Welles, que já dizia isso, é John Ford.