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O que é…?

Luiz Carlos Merten

02 de agosto de 2014 | 09h32

O que é o cinema? Volto e meia me faço a pergunta, que deu origem ao livro com os escritos de André Bazin. Qualquer dia desses vou editar um post sobre o volume que está saindo agora, com mais de 50 anos de atraso, no Brasil. Antes tarde do que nunca, mas é preciso contextualizar as ideias de Bazin em sua época e tentar reformular seus princípios para o século 21. Não dá mais para tomá-los ao pé da letra e, aliás, segundo Roger Boussinot, nunca deu. Ele sempre foi crítico com o método de Bazin, acusando o autor de ter ideias contraditórias e até confusas na sua noção do ‘realismo’, mas deixa pra lá. Tenho para mim que o plano sequência das câmeras ditais de Amos Gitai e dos Irmãos Dardenne sustentam mais a demanda de realismo de Bazin que a profundidade de campo de Orson Welles e William Wyler, mas, enfim, o bom André, carola demais, teorizava com o que tinha à mão. Tenho feito a mesma pergunta a propósito do teatro, Mas o que é o teatro? Gostaria de discutir o assunto com meu amigo Gabriel Villela, mas ele emendou o fim de Réquiem para Antônio com uma viagem à Europa e voltou diretamente para o sítio, no interior de Minas. Agora, que retorna a São Paulo para recomeçar a trabalhar – Tempestade, de Shakespeare, e Francesca dela Monica também está aqui -, lá vou eu para Gramado, na semana que vem. Tenho visto muita coisa e, a rigor, com exceção de Se Elas Fossem para Moscou?,  o belo díptico de Christiane Jatahi, e dos Clowns de Shakespeare – Muito Barulho por Quase nada -, não tenho gostado de muita coisa. Achei interessante o Cristiano Burlan e sua Cia. dos Infames (Vida de Homens Infames) e, mesmo correndo o risco de ser esquartejado em praça pública, achei datado o texto de Abajur Lilás, remontado por André Garoli. A montagem, em si, tem seus momentos, e eu até entendo que Plínio Marcos tenha construído toda aquela fabulação para falar de quase nada – a puta morre porque quebrou o abajur – porque só assim conseguiria refletir o autoritarismo e arbitrariedade do Brasil sob a ditadura. Entendo, mas não consigo me conectar. O realismo de linguagem é muito forte para que eu o sustente sobre uma base tão frágil – para mim, tão pouco crível. Ah, sim, as pessoas se matam por tostões – até hoje -, mas aí entramos no domínio do teatro do absurdo, em Ionesco e Beckett, que são outra coisa (e certamente não realistas). Vi também Quem Tem Medo de Virginia Woolf. Jesus! O espetáculo chegou a São Paulo coberto de elogios pela crítica do Rio. Se eu me pergunto o que é teatro, nunca canso de me espantar – mas quem são essas pessoas que vão ao teatro e transformam tudo, automaticamente, em vodevil? George e Martha se despedaçam no palco e as pessoas riem enlouquecidamente na plateia. Até onde me lembro, a versão de Mike Nichols com Richard Burton e Elizabeth Taylor não é uma comédia, e os dois atores sustentam o patetismo de certos diálogos e situações com rigoroso antinaturalismo. Liz Taylor ganhou o Oscar, mas Dick Burton consegue ser ainda mais assombroso que ela. A voz de Burton, os olhos de Taylor! Do jeito que era dito por Daniel Dantas e Zezé Polessa e com aquele festival de risadas, não conseguia mais prestar atenção no diálogo e comecei a me irritar com aquele cenário que rodava – a troco? – e com aqueles pombais. Foram duas horas (e 20) mmmuuuuiiiitoo longas. Mas o pior de tudo foi o Bob Wilson – Bób Wílsôn, como diz a Isabelle Huppert. Escrevi um texto ontem no Caderno 2 para tentar explicar porque não gostei de The Old Woman/A Velha. O que seria de Bob Wilson sem a lanterna mágica e o cinema mudo? Ele provavelmente não teria bússola para seus espetáculos tão refinados quanto vazios, tão deslumbrantes quanto inócuos. Um crítico inglês já escreveu que ele virou o emblema do ‘international chic’. Faz um teatro formalista em permanente itinerância pelo mundo. No Brasil, temos visto bastante Bob Wilson nos últimos anos. Os espetáculos mudam, mas são sempre rigorosamente os mesmos (Lulu foi o de que mais gostei). Lindamente iluminados, com movimentos em câmera lenta, objetos que se movem no palco (quase sempre em silhueta). Você vê uma vez, na segunda identifica o método, na terceira já sabe exatamente o que virá. Justiça seja feita. Bob Wilson honra sua grife. É o menos surpreendente dos metteurs en scène. Pathos, texto, nem sonhar. O negócio é passear o olhar pelo palco, e se não me engano, essa arte para os olhos, não para o olhar, é muitas vezes o que se critica, até um tanto injustamente, no cinema de Hollywood. Continuo sem resposta. O que é o teatro? Volta, Gabriel, para podermos conversar.

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