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O que ainda falta dizer sobre Os Pássaros?

Luiz Carlos Merten

09 de outubro de 2020 | 19h42

Fazia tempo que não revia Os Pássaros. Não é, nunca foi, o meu preferido na trilogia edipiana de Alfred Hitchcock que começou com Psicose e se encerrou com Marnie, as Confissões de Uma Ladra. O primeiro é o mais importante, até pela forma como o mestre do suspense incorpora as técnicas de televisão. O cinema nunca mais foi o mesmo depois que Marion Crane foi morta a facadas naquele chuveiro. Visceral, mas o terceiro – o último – é o mais emocionante. Sempre tive sentimentos conflitantes por Os Pássaros. Gosto da construção dramática, da forma como Melanie Daniels se introduz na casa de Mitch Brenner e provoca a animosidade da mãe dele. Lydia é psicanalisada no diálogo pela ex-namorada de Mitch, a professora Annie. No limite, o filme reconstitui uma ideia de família fraturada e Melanie termina encontrando em Lydia a mãe que não tem. O drama humano ocorre no quadro do Judgement Day, e Hitchcock nunca oferece resposta à pergunta que não quer calar – por que os pássaros estão atacando, e matando, em Bodega Bay? Tentativas não faltam, e as cenas da lanchonete e do interior da casa, no andar de cima, quando Melanie é atacada, estão cheias de sugestões. Mas eu confesso que os efeitos me derrubam. Os Pássaros foi indicado para o Oscar da categoria, em 1963. Havia somente dois indicados – o Hitchcock e Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, cujos efeitos visuais se resumem a uma ou duas ‘dissolves’, ou seja, transições graduais de uma imagem a outra. Cleópatra levou, o que me leva a acreditar que não fui só eu que emperrei com os efeitos de Os Pássaros. Pior – revendo ontem o filme, claro que dava para perceber o cuidado de Hitchcock com sua estrela, Tippi Hedren. Os dois tiveram aquela relação complicada que todo cinéfilo conhece. Os pássaros a atacam, tiram sangue, mas não estragam o penteado de Tippi. Confesso que dei boas risadas. Melanie vai buscar Cathy, a irmã de Mitch, na escola, mas vai de bolsa. Nem correndo dos pássaros ela desiste da tal bolsa, que ainda carrega daquele jeito formal. Modismo da época, mas é muito cafona. Marnie, a seguir, começa com outra bolsa que Tippi carrega. Só que essa outra bolsa está dobrada, formando os grandes lábios vaginais. Na sequência, Marnie abre um cofre. Todo o tema do filme está nessas cenas. A mulher sexualmente reprimida, em busca de liberação. Marnie é muito melhor.

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