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O pior Hawks?

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2013 | 12h16

Howard Hawks nunca teve muito apreço por O Rio da Aventura, mas ele tinha seus motivos. Quando se lançou ao projeto, em 1952, o impacto de Rio Vermelho ainda era recente e ele devia pensar, com certeza, em outro grande western. A história também não poderia ser mais hawksiana – o amor (não homossexual) entre dois homens, ameaçado por uma mulher e, no limite, preservado pelo sacrifício que visa salvar a amizade -, mas a coisa não saiu como ele esperava. Hawks planejava filmar 100% em cenários naturais e o tempo não ajudou. Chuvas, nevascas, a produção estourou 35 dias ( e durou mais que o dobro do prazo previsto), a produção de um milhão e pouco (de dólares, que já era cara na época) ultrapassou dois milhões e meio, mas o pior de tudo é que Hawks e Kirk Douglas não se acertaram. O ator, que viraria produtor, achava que Hawks era o próprio desperdício (e não fazia segredo disso, embora o dinheiro fosse do cineasta) e o diretor, em contrapartida, também percebeu logo que Kirk era bom fazendo canalhas ou, pelo menos, heróis dúbios, não o tipo de homem íntegro que estava criando. A própria montagem foi complicada, com o estúdio querendo cortar o filme e Hawks tentando preservar o material, sob a alegação de que o ritmo era deliberadamente lento (um road movie através do rio) e os cortes arruinariam seu ritmo. Isso posto, Rio da Aventura, resgatado em DVD pela Versátil, tem belas cenas – Douglas e Dewey Martin no saloon, cantando à glória do uísque – e a relação com a mestiça índia tinha seu quê de avançado, porque ela ama os dois, mesmo que seu desejo seja por Martin. Acho bacana o final, quando o garoto vira homem e queima o escalpo – vejam para saber o que significa -, mas, no limite, não é um bom Hawks. Aproveito para lembrar que, no mês que vem, a sala de cinema do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, anuncia uma retrospectiva completa do grande autor, com debates, nos moldes da que dedicou a Charles Chaplin, no ano passado. Cinéfilo que se preze sabe que, nos Cahiers du Cinéma de capa amarela, a norma era ser hawks-hitchcockien, e Hawks, com Alfred Hitchcock, era o autor que os jovens da nouvelle vague mais amavam (havia também a paixão por Jean Renoir e Roberto Rossellini, mas era outra coisa). Existe uma boa bibliografia sobre Hawks, grandes livros de Peter Bogadonich e Robin Wood (o que mais analisa a alegada ‘homossexualidade’ do autor), mas tenho, para mim, que o livro definitivo é o de Todd McCarthy, um calhamaço de 900 páginas que é, ao mesmo tempo, biografia e fortuna crítica. Nenhum defende O Rio da Aventura, mas McCarthy faz observações muito interessantes sobre o elenco (Arthur Hunnicutt domina a cena) e sobre um momento, em particular, o dedo decepado. Era uma ideia que Hawks já quisera implementar em Rio Vermelho, mas não houve jeito de convencer John Wayne, que achava que misturar tragédia e comédia não daria certo. Quando viu a cena, Wayne convenceu-se de que, com Hawks, dava para rir no velório (conforme dizia). E nunca mais contestou uma vontade ou decisão do grande diretor, pelo resto da parceria de ambos (Rio Bravo/Onde Começa o Inferno, Hatari!, Eldorado e Rio Lobo). O título do post é só provocação. Não estou seguro de que seja mesmo o pior Hawks – por que não Os Homens Preferem as Loiras, ou Terra dos Faraós? – e também nunca acreditei na fórmula de Cahiers, para quem o melhor John Huston não se comparava ao pior Howard Hawks. Como acreditar, eu que gosto tanto do Huston final, pós-Freud?

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