As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘O Ovo da Serpente’

Luiz Carlos Merten

09 de dezembro de 2012 | 13h00

Régis diz que assistiu a ‘O Ovo da Serpente’ e achou um dos filmes mais fracos de Ingmar Bergman (o mais?). Pede, inclusive, que faça um paralelo entre ‘O Ovo’ e ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke, já que ambos tratam da gênese do nazismo. São bem diversos, até pela época retratada. Bergman filma o começo do nacional-socialismo e Haneke mostra (documenta?) as crisanças que vão se transfrormar nos futuros apoiadores de Adolf Hitler. Nunca gostei muito do ‘Ovo’, ao contrário de ‘Da Vida das Marionetes’, que me causou verdadeira comoção, na primeira vez em que o vi. Ambos são filmes do exílio, que Bergman fez na Alemanha, naquele período em que deixou a Suécia em represália contra o fisco, que descobriu sei lá que irregularidade em suas prestações de contas e o acusou de sonegar impostos. Bergman havia feito filmes que retratavam seu horror da burocracia e da humilhação, moral e/ou física. As duas se abateram sobre ele, que reagiu, de certa forma, fugindo, mas voltou para fazer um de seus filmes mais ‘suecos’ – ‘Fanny e Alexander’. O curioso é que o produtor Dino De Laurentiis tentava cooptar Bergman há anos. No começo dos anos 1960, ele chegou a anunciar que faria ‘A Bíblia’ com episódios assinados por Bergman, Federico Fellini e Akira Kurosawa, mas quem terminou assinando (e até interpretando) o filme foi John Huston. Em 1978/79, o fragilizado Bergman aceitou a oferta de De Laurentiis e fez ‘O Ovo da Serpente’. O filme narra as desventuras de um trapezista judeu no período anterior à 2.ª Guerra. Bergman volta ao circo, que já filmara em “Noites de Circo’, nos anos 1950. Guardo a lembrança de esse ser o filme masis ‘desaagradável’ de Bergmasn, como ‘Da Vida dos Marionetes’ sempre me pareceu o mais angustiante. Há alguns anos, fui à ilha de Faro num evento Bergman. Havia acadêmicos de toda a Europa e dos EUA. Apresentaram uma série de ‘lectures’ sobre o grande autor. Uma das mais interessantes foi sobre ‘Serpent’s Egg’. Bergman estava obcecado pela questão do dinheiro – seu drama com o fisco – e a refletiu justamente naquela época, pós 1.ª Guerra, em que o dinheiro da Alemnanha não valia mais nada e foi isso que lançou a classe média empobrecida no apoio a Hitler e seus asseclas, que tomaram de assalto o Estado alemão. Lembro-me de que a análise transformava tudo em símbolo – o circo, o trapézio, o dinheiro – e eu pensei com meus botões que era tudo intrigante, fascinante, mas mesdmo assim não salvava o filme que sempre me pareceu uma coisa fake, meio encomendada, como se Bergman tivesse, internamente, de seguir trabalhando e, como náufrago, se atirou no que estava à mão. ‘Da Vida dos Marionetes’ também é um Bergman ‘diferente’, mas a crueldade e a dissecação dos sentimentos sempre me deixaram chapado. Que que é aquilo? Já ‘O Ovo’, com todos aqueles nomes e figuras frequentes da obra do autor, me pareceu uma coisa mais enjambrada. De qualquer maneira, acho que se trata de uma parceria masis complexas e Bergmasn com Sven Nykvist, como se o diretor, consciente das limitações do próprio filme, o quisesse fazer belo, e com imaqgens meio fora de esquadro, para compensar. Estou falando isso de memória. Se há um filme de Bergman que nunca mais revi, foi esse. Lamento se decepcionar o Régis, mas se ele esçperava mais de mim eu também esperava mais do Bergman.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.