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O ovo da serpente

Luiz Carlos Merten

18 Julho 2016 | 10h36

Tenho a impressão de ter sido melodramático em meu post anterior. Senhor, tenha piedade de nós. Mas não era só pela morte de Michael Cimino, Abbas Kiarostami e Hector Babenco, autores de um cinema crítico e que, em seus melhores momentos, nos confrontaram com os grandes enigmas da existência e com os riscos (perigos? Desafios?) da organização política e social. A quinta-feira havia sido dura – toda aquela correria, e quando você está correndo a adrenalina não te permite soçobrar. Naquele dia jantei sozinho, e havia uma TV sintonizada no Jornal Nacional no restaurante. Fiquei vendo as imagens do Congresso, no day after da escolha do novo presidente da Câmara. Foi o segundo horror, depois do dia da votação do impeachment. Não sei quais são os piores lá dentro – se os corruptos ou os que se julgam salvadores da pátria… José Simão matou a charada. Outro dia no táxi o ouvi chamar ‘Rodrigo Mala’ e o pai do cara, César Maia, ainda agradeceu aos evangélicos pela eleição do filho. Não existe decência nem integridade. É só uma questão de poder. Pessimismo? Aguardem para ver… Só isso já era de deprimir, mas aí ainda fiquei vendo as imagens do horror em Nice. Perturba-me muito que a França se tenha convertido em alvo preferencial do terrorismo islâmico. Desde O Ódio, de Mathieu Kassovitz, o cinema francês tem tentado dar conta das tensões sociais no País. A população muçulmana cresce na periferia e nas prisões, o que favorece o recrutamento pelo islamismo radical. Mas tem a ver com a marcha da história. Há 30 anos, um grupo de direita afogou um franco-argelino no Sena e isso provocou o surgimento do SOS Racisme, uma espécie de braço ativista do governo socialista de François Mitterrand, que serviu como plataforma de lançamento para políticos de origem magrebina. Nesse período, temos assistido a um declínio da esquerda e a um crescimento do discurso direitista baseado na competitividade e na exclusão. Tudo isso é fato, mas não consigo esquecer de Ingmar Bergman, O Ovo da Serpente. Nos anos 1970, a França abrigou Khomeini e ele, de Paris, comandou o movimento popular que levou à deposição do Xá, no Irã. Na época, estava na editoria de Inter, na Zero Hora, em Porto Alegre, e acompanhava diariamente a movimentação na França, as grandes manifestações que foram ganhando sincronicidade, em Paris e Teerã. O Xá foi deposto, Khomeini voltou nos braços do povo, a república dos aiatolás foi instalada, o Irã virou uma teocracia e todo o mundo árabe tem tremido, desde então, com o advento do islamismo radical. Sempre me perguntei se, em outro país, Khomeini teria desfrutado daquela liberdade, e se o mundo teria sido outro, não fosse a vitória da sua revolução? A França gerou a serpente? Desde então, a periferia provoca medo na França profunda. O Islã visa criar um clima de guerra civil? Nesse quadro, Michel Houellebecq dá vazão ao medo comum com a ficção de Submissão, em que imagina a França dominada por um governo muçulmano. O problema é que estamos nos encaminhando rapidamente para um confronto. Não se trata mais de reconhecer e respeitar o outro, porque o Islã radical não quer diálogo. Ficou lá no passado da minha infância a fala do sultão de Bahrein, diante da cabeleira ruiva de Rhonda Fleming. Disse que ela era a prova da misericórdia de Alá pelos homens. Nesse assustador mundo novo, Rhonda seria apedrejada e o sultão idem, acusado de traição. Quando foi que Alá deixou de ser o Misericordioso? Amo a França. Em Porto, era algo impossível. Nos últimos 25 anos, ou mais, a França deixou de ser uma referência distante para mim. Tenho ido regularmente. Todo ano, duas ou três vezes. Às vezes, mais. Entendo perfeitamente o herói tetraplégico de Como Eu Era Antes de Você, quando ele diz que a felicidade é estar naquele café, em Paris, vendo a vida passar. Não há uma vez que volte à França sem ir a Notre Dame. Sento-me naquela nave e libero a imaginação. E sempre revejo, no inconsciente, Charles Laughton com Maureen O’Hara nos braços, proclamando o direito de asilo para Esmeralda, na adaptação do romance de Victor Hugo por William Dieterle, de 1939. Tremo só de pensar no que ocorreria com a catedral, numa eventual França muçulmana. Entendem quando peço a piedade divina? Se pelo menos Ele estivesse escutando….