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O ‘outro’ Sal da Terra

Luiz Carlos Merten

05 de abril de 2015 | 23h20

Fui rever Fim de Semana em Paris e gostei mais ainda do novo filme de Roger Michell. Jim Broadbent e Lindsay Duncan são ótimos como o velho casal que vive os altos e baixos de um casamento desgastado pelo tempo, mas, como se diz, ainda há fogo sob as cinzas. Achei o filme bem realizado, bem escrito (por Hanif Kureishi) e muito bem interpretado. Sugiro que vejam, se já não o fizeram. Mas o post, originalmente, era para ser sobre Sal da Terra, não o documentário de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders sobre o pai do primeiro, o fotógrafo Sebastião Salgado, mas The Salt of the Earth, de 1954. Desde Cannes, no ano passado, tenho me lembrado muito do clássico de Herbert Biberman. E tenho me lembrado mais ainda desde que vi e postei sobre Pride, o longa inglês sobre o apoio da comunidade gay a uma greve de mineiros na Inglaterra de Margaret Thatcher. O Sal da Terra é sobre outra greve de mineiros, no Novo México, em 1953. Os caras venceram por causa das mulheres. É uma ficção com cara de documentário. Mineiros de verdade repetem seus papéis na tela. Juan Chacón é empurrado pela mulher, interpretada por uma atriz profissional, Rosaura Revueltas. Vi o filme no Uruguai, por volta de 1970, numa época de muita movimentação política. Além de ser um tributo à força da mulher no movimento trabalhador, o filme antecipa as grandes lutas feministas, por igualdade em casa, no trabalho, na cama. Rosaura toma a direção do movimento. Não ameaça seu homem, mas ele começa a substituí-la em tarefas domésticas, para que ela lidere piquetes e mobilize as outras mulheres. Não vou repetir o diálogo, exatamente, mas numa cena ela diz ao marido preocupado e confuso que quer crescer e levar tudo e todos com ela (é mais ou menos isso). O mais incrível sobre The Salt of the Earth é que se trata de uma produção independente, claro, e vejam os nomes – direção de Herbert Biberman, produção de Paul Jarrico, roteiro de Michael Wilson, fotografia de Stanley Meredith e Leonard Stark, música de Sol Kaplan. Cinéfilos de carteirinha talvez os reconheçam.  Em 1954, estavam todos – todos! – na lista negra do macarthismo e, se já não estivessem, teriam entrado. O próprio The New York Times acusou o filme de ser subversivo e anti-americano. Não é anti – é pró-movimento trabalhador, pró-mulheres, pró-humano. Os personagens não são maiores que a vida. Só viram heróis pelo sentimento de solidariedade e união, quando cerram fileiras e permanecem juntos contra a repressão e o poder da elite. Lembro-me que vi O Sal da Terra numa sessão concorrida, num sindicato ou coisa que o valha. Foi onde também vi El Chacal de Nahueltoro, de Miguel Littín. As pessoas, e eu junto, choravam, riam, aplaudiam. Na cena tipo ‘escadaria de Odessa’ de The Salt of the Earth, as mulheres encarceradas fazem um protesto, e gritam, e acuam o xerife, em defesa de Rosaura Revueltas e seu bebê. Pergunto-me como The Salt of the Earth terá resistido ao tempo? Imagino que bem. Sua fama é de filme ‘that lives up in the legend’. Taí outro que a Cult ou a Versátil deveriam resgatar, se já não o fizeram (mas nesse caso, eu teria perdido o lançamento, e não creio). O boicote foi tão grande que se passaram 45 anos – quase meio século! – até Biberman voltar a filmar, e em 1989 ele lançou Slaves, sobre a condição dos negros na sociedade norte-americana. Slaves não obteve míseros 10% da aura cult de The Salt of the Earth. Nunca o vi. Não posso avalizar suas qualidades, mas as de Sal da Terra, sim.

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